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terça-feira, 4 de julho de 2017



Por Everaldo  Soares


P R E L Ú D I O


E N T R E   A   V I D A   E   O S   S O N H O S





    Sobressaltado e confuso, Artur abriu os olhos, e um facho fino de luz incidiu sobre eles. Os primeiros raios de Sol, ganharam a sala por uma fenda semi-aberta da persiana. Ele ainda permanecia imóvel na poltrona, assombrado pelo fantasma de seu próprio silêncio. Vagueou por muito tempo, em terras desconhecidas nas fronteiras obscuras do inconsciente, até que uma leve dor no estômago o trouxe de volta.
    Ele recobrou os sentidos e os movimentos, ergueu o braço tapando com a mão o brilho ofuscante que perturbava seus olhos, e só então se deu conta do cachorro de pé em seu colo, apoiado sobre as patas traseiras. Latia freneticamente no pé de seus ouvidos.
    Por vários segundos, Artur observou silenciosamente o pobre animal agitado, só depois expressou um leve sorriso. Ele agora não sentia mais dor, nem medo, só estava feliz em ver o cão ali, nunca sentira antes tamanha felicidade. Segundos depois ele se levantou, e segurando o animal nas mãos, titubeou até o telefone que tocava incessantemente.

    "Senhor Artur!? Uma voz bem calma falava do outro lado da linha.
    "Sim, ele mesmo". Respondeu um pouco ofegante, enquanto colocava Ozzy no chão.
    "Falo do consultório da Dra Sofia, o Senhor agendou consulta para as nove horas da manhã de hoje. Pediu para que eu entrasse em contato, caso o senhor esquecesse."

 "Ah, puxa vida!" Ele esfregou os olhos, virou para o relógio na parede, os ponteiros marcavam nove horas...



*                    *                    *



    Assim que chegou em casa, Artur desceu do carro e conferiu o relógio de pulso. Marcavam onze horas da noite.
    Ele passou pelo  canteiro de jasmim, e viu Fí, entrincheirada atrás das margaridas do jardim da esposa. A gata siamesa espreitava  roedores e pássaros intrusos.
    Ele atravessou a porta da sala indiferente, deixou o vidro do carro aberto, e jogou as chaves sobre um Garrard Gradiente velho num canto da parede da sala.

     Assim que as luzes se acenderam, o pequeno vira-lata rachou o silencio da casa, com um ladrido espantoso de boas vindas ao visitante recém chegado. Artur rendeu-se a pequena criatura, que, a julgar sua aparência e agitação, reclamava sua atenção.

    "Suponho que esteja com fome amiguinho!" Falava enquanto despejava o pacote de ração para cães, na tigela do pequeno Ozzy, o cãozinho de pelos pardos, que  Artur  tratava como um membro legítimo da família.

    Satisfeito, o pequeno hóspede agradeceu o anfitrião da casa, com a educada maneira de retribuir dos cães.
    "Está bem coleguinha, agora precisa descansar." Acomodou o corpo frágil do animal, em cima de um tapete sobre a esteira da sala ao lado do painel de televisão. "Você terá um dia cheio pela frente, amanhã o novo carteiro precisa ser apresentado, você não acha?" Desta feita, despediu do amigo desabotoando a pulseira do relógio, e caminhou lentamente até a sala de jantar, onde, um porta- relógio suíço decorava o amparador de espelho. Guardou o relógio ali, cuidadosamente, e voltou para a cozinha.

    A visita indesejada da nostalgia, fez com que Artur começasse a andar abatido pela casa, ele andava muito nervoso naqueles dias, e tomava medicamentos para controlar a ansiedade.
    A morte inesperada da esposa a menos de quatro meses, abriu um abismo enorme que separava a saudade, do desejo de supera-la.
    A cabeça de Artur  tornara-se um esconderijo de sentimentos obscuros, tristeza e angustia reinavam o seu castelo interior. O nascimento prematuro do primeiro filho do casal, levou a complicações no parto, trazendo Júlia a óbito por uma grave  hemorragia. Mãe e filho morreram, levando com eles uma parte do jovem esposo.

    A bordo do navio fantasma, assombrado de solidão, ele navegou em águas profundas. Afastou- se do trabalho que tanto amava, se recusara a receber amigos e parentes, só a depressão lhe fizera companhia, e com ela tramara as mais terríveis armadilhas para a própria vida. Por sorte não caíra em nenhuma delas.
    Quando em quando ele passeava pelo quarto do casal, carregando no colo o cachorrinho que a mulher adotara meses antes, Júlia adorava animais e trabalhava numa clinica veterinária. Ela era membro de um grupo independente, que cuidavam de animais abandonados e depois doavam a pessoas interessadas, que gostariam de ter um animal como companhia.
    Nas vésperas de festas comemorativas, como o dia das crianças ou nas comemorações de final de ano, Júlia era voluntaria na paróquia Maria das Graças no bairro onde moravam. Lá, ela ajudava na coleta, e distribuição de brinquedos e alimentos. Dali, seriam transportados para vários rincões do estado. Marta supervisionava a atividade, e era ela sempre, a principal responsável pelos serviços filantrópicos, organizados pela comunidade. Não tinha muita saúde, pouco mais velha que Júlia, era um corpo frágil num coração íntegro e forte.

    Ele ainda guardava os pertences pessoais da esposa. Um cordão com um pingente de Santa Tereza D'ávila descansava por entre as paginas da bíblia aberta sobre o criado mudo, e vários exemplares da madre carmelita. Ela era leitora assídua de sua obra.
    Júlia tinha precedentes espanhóis, mas seus antepassados eram tradicionais hindus. O contato com os cristãos da Ordem na adolescência, fez acender uma chama na mina escura da alma de Júlia.

    Ela adorava a companhia do tio Filemon, embora fosse o tio biológico de Artur, irmão de seu pai. Ele era o Pároco responsável pela paróquia a qual Júlia pertencia. Filemon era um homem esguio e calvo, dono de um semblante calmo e alegre. Ao contrario, o sobrinho  não era muito alto como o tio, mais era um jovem robusto, de cabelos compridos e olhos castanhos.
    O padre Filemon era um homem inteligente, tolerante e um estudioso dedicado, para ele não importava a versão, mas sim, os fatos. 'A terra gira em torno do sol.' É um fato, dizia ele.

    Artur era um agnóstico evolucionista, mas compartilhava com a esposa e o tio algumas de suas reflexões. Mas existia um contraponto de idéias, uma vez que Júlia dizia que o ser humano  feito a imagem e semelhança do criador era de substância espiritual. Ele costumava, sempre que podia, advertir Júlia contra a natureza animalesca do bicho-homem.

    As vezes ele a deixava irritada com alguma brincadeira. Disse certa vez: 'Se você vestir um macaco e ensina-lo a pegar um táxi, ele continuará sendo um macaco vestido pegando  um taxi'. Uma vez Artur bebeu umas cervejas a mais, e disse para o tio que ele havia perguntado a um amigo judeu, o que passara na cabeça dos judeus que sobreviveram ao holocausto do terceiro reich. A resposta do colega foi categórica. Dissera: ' Na cabeça eu não sei, mas meu avô dizia que, quando ainda menino, fora deportado da Itália para a Alemanha, os judeus italianos que escaparam tinham o desejo no coração, de enforcar o Papa com as tripas do velho Mussolini.' Dizia o outro.

    'Não é tão simples assim!' Dizia o sacerdote virando uma taça de vinho tinto, enquanto Júlia preparava o almoço. 'Mussolini e seus capangas fascistas , colaboraram para a causa nazista. Mas não se esqueça meu rapaz, que o Santo Padre representa a Santa Igreja, e defende seus códigos morais de unhas e dentes. Não existe nenhum documento que comprove as acusações feitas contra o pontificado de Pio XII, com exceção dos escritores anticatólicos, o que vem a ser outro embuste.'

    Júlia era mais cautelosa,apesar de ser complacente com as palavras, nutria por elas o seu grande valor poético, e Artur sabia disso.
    Sempre muito tranquila, era difícil vê-la aborrecida com alguma coisa, era uma mulher muito bonita, tinha um rosto fino e "seus olhos"  eram  "negros" como a noite, ele costumava dizer invocando o espírito do poeta preferido de Júlia. Recitava:

    'Seus olhos tão negros,tão belos, tão puros,
assim é que são.
As vezes luzindo,serenos tranquilos,
as vezes vulcão.'

    Ela amava Gonçalves Dias, o poeta náufrago, mas seus poemas flutuavam na imaginação de Júlia, que os tinham como referencia de inspiração para suas próprias poesia

    Os dias que anteciparam a morte da esposa, também antecipavam a chegada do aniversário de Artur. Marcou profundamente a vida dele, os episódios que se seguiram após sua partida.
    Passaram-se algumas semanas, após o fatídico dia de despedida da mulher, ele começou a reorganizar a bagunça que o desdém pela casa se encarregou de trazer. Ele começou a organizar o guarda- roupas do casal, retirando todos os cabides com as roupas de Júlia. Pretendia doa-las.
    Viu no fundo da espessa base um invólucro, e verificou dentro que havia uma pequena caixa envolta em um papel brilhante e abriu. Dentro havia um porta- relógio, e um pequeno cartão nele dizia: 'Para Artur com carinho. Assinado:  Júlia. Feliz Aniversário.'
    Assaltado por uma sensação sem nome, ele sentou na beira da cama, e bem devagar, retirou o relógio da caixa e colocou no pulso. Guardou o porta-relógio em cima de um amparador, e nunca mais  tirou de lá. A mão do destino pode ter escondido de seus olhos o presente da esposa, mas não pode esconder  os sentimentos que Artur sentia  por ela até o seu ultimo suspiro. Aquele foi o seu maior presente.


*                    *                   *


     Nesta noite, o silêncio engoliu a casa, era possível ouvir do quarto o tic-tac do relógio de parede da cozinha. Um torvelinho de pensamentos começou a rodopiar na cabeça de Artur, ele sabia que o silêncio contava histórias, mas não estava disposto a ouvi-las.
    A brutalidade do poder do silencio, arrebatou seu espírito que agora planava pelos desertos da saudade e da solidão. Ele perambulava pela casa feito um cão perdido, correu até o espelho a procura da face perdida do verdadeiro Artur, mas não encontrou, viu um zumbi deprimido de aspecto horrível fadado a vagar sem rumo.
    Sussurrou baixinho temeroso de ouvir as próprias palavras virando-se para a porta. A vida tinha esconderijos, mas Artur não tinha a intenção de se esconder, ele passou os olhos pela casa parado no hall da sala. Ah sim! tinha uma saída, talvez duas, ressuscitar aquele rosto fantasmagórico sepultado no espelho e seguir em frente ou...
    Começou a andar de repente de um canto a outro da casa, e voltou os olhos para uma garrafa de vodka em cima do balcão da sala. Ele investigou as opções, dava a impressão que ela prometia solucionar o caso clássico do pensamento sádico em estado de choque.

     Ele não era um amante da bebida, mas pensou: 'Que importa!' Além do mais, o chão da sala  é o  limite. Levantou a garrafa para um trago enquanto vacilava caminhando tirando os sapatos dos pés. Tomou o controle nas mãos, apagou a luz, e caiu na poltrona em frente a televisão.

     Artur acolheu mais um gole de bebida no estômago vazio, e colocou a garrafa no chão sobre o espesso tapete. Depois guardou o disco vinil dos beatles que mais amava: a banda do clube dos corações solitários do Sargento Pimenta.
    Sobre uma mesa rustica arqueada ele abrigava sua coleção completa de álbuns, e mais algumas revistas cifradas para violão que ele colecionava. Ganhara de presente do pai, junto com um violão, quando só tinha treze anos, pouco antes de sua morte repentina.
    O jovem Artur entrara em estado de choque, nunca conhecera a mãe biológica, e seu pai, segundo diziam os parentes próximos do menino confuso, era Deus quem o havia levado, junto com sua mãe. Que tipo de Deus levaria tudo de uma criança? E por qual razão o faria?
    Estas foram as perguntas que o jovem Artur se fez, logo que perdeu o pai. Ele parou de tocar com o coral da igreja, se recusara a receber o sacramento da crisma, arregaçou as mangas e foi trabalhar para ajudar sustentar os irmãos mais novos. O tio que era padre, teve profundo impacto na vida de Artur, foi ele quem ajudou a cuidar da família. Artur tinha profunda gratidão e respeito por ele.

    Voltou para os noticiários de tevê que cobria a seguinte matéria: Outro caso de morte envolvendo policiais nos Estados unidos causam revolta e protesto. Na ultima quinta feira um homem negro foi morto com cinco tiros por dois policiais branco, a acusação contra os policias é de racismo. Os policiais alegam legitima defesa, mas o caso está sendo investigado. 

    Enquanto a reportagem notícía o faticídio com imagens de violência e caos em frente a delegacia de policia local, uma barra de noticias  mostrava a seguinte nota: Um terrorista abriu fogo no sul da Flórida deixando vários mortos e outros tantos feridos. 

Outra noticia adjacente dizia: A Câmara dos Deputados da Itália aprova o casamento entre os homossexuais.

Segue noticiando: A maior autoridade católica, o Papa, é acusado de omissão de caso de abusos sexuais contra crianças, por parte de religiosos que exerciam atividade sacerdotal.

     'Ora! ora!' Dizia consigo mesmo. 'Um negro é perseguido! Um terrorista passeia pelo parque!.
     'gays abandonam seus armários!
     'Tarados celibatários deixam seus gabinetes para viverem suas fantasias, com a benção da santa ignorância daqueles que escrevem a cartilha do bom cidadão.'
    Com a visão meio turva e os reflexos alterados deixou o controle cair no chão.

    A noite já velava o sono entorpecido de Artur, quando uma voz chamou sua atenção no vídeo. Recostou a cabeça sobre a poltrona e levantou penosamente as pálpebras dos olhos.
    Uma voz intimidadora falava á uma multidão de pessoas, e enquanto gritava, trazia na mão direita erguida uma bíblia. A voz espalhava a culpa enquanto disseminava o evangelho da mediocridade.

    'Ah! O teatro dos oprimidos protagonizado pelos vigaristas de plantão!' Pensava semi-lúcido.
     A voz gritante no púlpito, anunciava a parúsia e exigia reparação com altos tributos para a salvação das pobres almas. O profeta de promessas vazias patrulhava com olhos famintos a multidão extasiada de presas fáceis, imediatamente envelopes eram distribuidos, e somas incalculáveis eram depositadas.

    'Figurões trapaceiros.' Dizia moribundo fechando lentamente os olhos, com a cabeça agora totalmente reclinada na velha poltrona.
    Cochilava semi-lúcido enquanto ainda pululavam em seus pensamentos algumas palavras:

     'No vazio da crise existencial...
    'O rebanho vencido canta a canção dos lobos...cultuam charlatães inventores de falsas doutrinas...
    'No vazio da crise existencial...habitam todo o tipo de superstições...
    'No solo fértil da alma adoecida...
    'Onde brota o pavor da morte e do inferno...bispos milionários constroem o seu paraíso...
    'Gente da pior espécie...
    'No vazio da crise existencial...

    Um torpor intenso se fez cair sobre o corpo do jovem rapaz, vencido pelo estresse e cansaço.


*                    *                    *   


     Tempo se passou, desde que a noite escureceu de vez os olhos de Artur. De repente, despertou assustado com a televisão desligada. A casa estava toda escura, e ele pensou que a eletricidade fora interrompida por um curto-circuito interno , ou, alguma coisa acontecera na rede de transmissão externa. Permaneceu sentado por alguns instantes, examinando qual das duas opções seria a pior.
    Segundos depois ele começou a ouvir um som agudo, parecia  um cilindro de alta pressão se despressurizando por uma fenda extremamente pequena. Uma corrente de eletricidade estática apareceu na tela do televisor, e cintilava intermitentemente. Enquanto pensava no que poderia ter causado o problema, a imagem assimétrica da tela se apagou abruptamente.

    Neste instante, sentiu um pouco de vertigem e ficou inquieto. Observou que no parapeito da janela, um pouco acima da persiana, um ponto de luz incomum piscava, enquanto alternava suas cores entre o vermelho e azul. Um calafrio percorreu seu corpo que ficou paralisado na poltrona, ele sentiu as pernas começarem a doer.
   Inesperadamente aconteceu uma coisa estranha; a pequena esfera luminosa explodiu num feixe de luz vermelha que partiu a escuridão da sala de um extremo a outro. Uma atmosfera tensa tomou conta do lugar, os sentidos de Artur ficaram alerta e ele estava apavorado tentando gritar mas não conseguia.

    A luz começou a ziguezaguear numa velocidade constante de um canto a outro da sala, passando por sobre sua cabeça, e ele acompanhava sua trajetória com os olhos arregalados de pavor.
    Tentava se mexer mas não conseguia, lembrou então de Júlia e do tio e começou a balbuciar alguma oração. Um barulho estranho e ensurdecedor ecoava nas paredes, e o medo se apossou de seu juízo, o beijo da morte parecia cortejar a face aterrorizada de Artur.

    Um brilho intenso e claro ia aumentando sua velocidade oscilando cada vez mais rápido e escaneava todo o lugar. Quando sua velocidade se tornou desmedida, ele parou de forma abrupta no ponto inicial de seu trajeto, na forma de uma pequena esfera latejante que pulsava sua luz.
    Artur não podia compreender o fenômeno, não num nível de consciência  que se depara com os limites dos sentidos. A esfera explodiu numa luz de néon intensa, deixando-o cego na mesma hora. E quando suas pupilas dilataram ele pode lentamente voltar a ver, e viu o que era incompreendido para sua mente objetiva e confusa.

    A cena era de um clarão que envolvia toda a sala, a luz já não incomodava mais os olhos da criatura que se achava inerte sepultada ali. De tão clara que era o seu brilho, sua luminosidade penetrava as paredes e os objetos da casa, tornando-os transparentes como se fossem feitos de vidro. As paredes eram como vitrines, expondo a forma nítida e clara daquilo que até então, era intransponível aos olhos. Dava para ver a garagem através da ampla porta de madeira. Fí, a gata siamêsa,  dormia tranquilamente sobre o teto do carro, e quando Artur levantou um dos braços vagarosamente, pode ver os ossos do metacarpo da mão como se olhasse através de um raio-x, e ficou chocado com o que estava vendo.

    O barulho agudo de antes voltou a zunir em seus ouvidos, só que desta vez mais alto. A temperatura subiu instantaneamente por um curto período de tempo, e depois caiu de repente.
    O zunido aumentou gradativamente até tornar-se insuportável, ele estava a beira de perder os sentidos, quando aconteceu uma coisa extraordinária: seus sentidos ficaram mais sensíveis, e ele podia ouvir o som das batidas do seu próprio coração. Um cheiro etílico forte sufocava Artur, e uma brisa fria percorria sua pele, embora estivesse  calor.

    Assim como as sensações surgiram, elas desapareceram repentinamente e houve uma pausa seguida de silencio. Depois uma vibração calma zunia nos ouvidos de Artur, que a essa altura, já não pensava em mais nada.
    Logo em seguida um nevoeiro de luz branca tomou conta da casa, e cobriu todo o lugar, um espirito numinoso tomou conta de sua alma,  e ele sentiu seu corpo ficar mais leve na poltrona da sala. O brilho fundiu-se a casa num branco tão intenso, que não se podia ver mais nada ali, e ele se sentia ainda mais leve.
    Um relampejo faiscou de dentro do nevoeiro anulando completamente a gravidade. Artur sentiu seu corpo flutuar da poltrona, e ser sugado para dentro do que parecia ser uma câmara de vácuo.
    A sensação era de haver uma ausência total de todas as percepções. Ele não sentia medo, nem dor, nem alegria e nem tristeza. Até sua localização espacial e temporal eram imprecisas, porque ele não possuía nenhuma substância ,apenas sua consciência estava alerta ali, naquele deserto vazio de sentidos.


*                    *                    *

    Passado algum tempo, não se podia precisar quanto tempo passou, uma ampla faixa de luz surgiu ao redor do espaço vazio e escuro. Não era uma redoma, mas sim uma faixa como uma parede de luz arredondada.



*encontre o conteúdo restante deste livro no link abaixo:


http://www.livrariacultura.com.br/busca?N=102281&Ntt=prel%C3%BAdio+entre+a+vida+e+os+sonhos
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