O mito de Adão e Eva: a legitimidade da dominação masculina
GILDA DE CASTRO
As sociedades produzem mitos para transmitir aos mais jovens suas interpretações sobre o mundo. Eles são narrativas de situações extraordinárias que expressam crenças, valores e ideais de um grupo. Transformam-se em discursos políticos, canonizando um modelo de comportamento percebido como correto e neutralizando, com enredo cativante, rejeição ao seu conteúdo moral.
A "Bíblia Sagrada" é, na perspectiva da Antropologia, um conjunto de mitos, pois suas narrativas constituem uma história sagrada para considerável parcela da humanidade. Apresenta situações exemplares que normatizam o comportamento, exigindo demonstração de fé pela supressão da dúvida crítica.
Seu texto mais conhecido é o primeiro capítulo do Gênesis: Deus criou um mundo perfeito, onde havia um ser superior, porque era sua imagem e semelhança. Mas houve o pecado original, desencadeando a desorganização no Universo representada pela fome, doença e morte.
A história da criação mostra pontos essenciais da sociedade hebraica que enfatizava a dominação masculina. A descrição de Jeová (Deus) é uma reconstrução do Patriarca: bondoso, sábio e generoso com seus filhos, controlava todos os membros da família.
Quando o Cristianismo difundiu-se pela Europa, houve a fusão da tradição hebraica com as tradições germânica e romana que também privilegiavam o poder masculino, pois os homens assumiam as atividades relevantes e as mulheres dependiam deles. Houve aceitação plena da "Bíblia Sagrada", que descreve a criação do mundo, apresentando uma ordem mestra que definia o lugar das coisas, a sucessão dos fatos e a hierarquia dos elementos. Tudo era perfeito com encadeamento adequado que finalizava no homem, criatura máxima constituída por uma parte material e outra espiritual, representando a síntese das coisas criadas e, por conseguinte, o poder divino. Isso lhe permitia sobressair como filho de Deus.
A perfeição da criatura humana adequava-se ao local onde vivia: o Paraíso. Tal proeminência, entretanto, isolava-o, porque as outras criaturas estariam aquém das suas qualidades; por isso, Deus providenciou-lhe uma companheira, mas ela seria apenas um complemento ou uma ligação da criatura-síntese da matéria com o espírito, porque surgiu a partir da costela do homem. Haveria assim uma dependência intrínseca da segunda criatura ao legítimo representante do poder divino. Ou seja, ela não teria existência própria e seu corpo seria uma extensão do corpo do companheiro.
Isso marcou nossa cosmologia e o homem assumiu autoridade absoluta diante da mulher. Ele pode usar o corpo da esposa como lhe convém, enquanto preserva sua autonomia para buscar outras parceiras. Mas, se ela copula com outro homem, o corpo do marido é também violado; logo, ele pode matá-la para eliminar aquela parte maldita que o incomoda.
Outro ponto importante refere-se à serpente que induz a mulher à desobediência da determinação divina. É um ser ambíguo, porque não apresenta as características básicas de sua classe, confundindo os sistemas de classificação: é um animal que não tem pernas. Muitos povos acreditam que as mulheres também não se ajustam às categorias taxonômicas dos seres humanos e tumultuam a ordem cósmica ao atualizar em seu corpo processos naturais, como menstruação e gestação.
Destacando essa proximidade entre os dois seres ambíguos, o mito retrata a crença de que mulheres e serpentes são seres perigosos; podem, portanto, provocar um mal intenso à sociedade que é um mundo masculino. Isso se transformou numa mensagem que norteou as relações de gênero no Ocidente: a mulher foi a fonte de desgraça do homem, provocando sua expulsão do Paraíso. Logo, deve permanecer isolada, sob vigilância permanente, para que não tome decisões que venham comprometer novamente o bem-estar social. E não pode aproximar-se de Deus como sacerdotisa.
Segundo o texto bíblico, depois de comer o fruto proibido, houve o caos absoluto. Tornou-se indispensável criar normas rígidas de comportamento para definir um estado, além da natureza, que protegeria o casal do desastre completo. Elas permitiriam a existência do homem depois da perda de sua perfeição, como criatura privilegiada de Deus, constituindo a cultura.
A primeira norma referia-se à moralidade quando o casal percebeu sua nudez e, envergonhado, procurou se cobrir. A segunda seria a nominação dos seres para propiciar o controle social sobre os indivíduos. O homem decidiu, naquele momento, que se chamaria Adão e sua mulher seria Eva. A perda do anonimato implicava a cristalização das ações de uma pessoa que precisam assumir responsabilidades, diante da possibilidade de identificação do autor dos eventos. A terceira norma relacionava-se à divisão sexual do trabalho, definindo que caberia ao homem a manutenção do grupo doméstico com seu trabalho na terra, enquanto a mulher teria filhos com intenso sofrimento. Ela precisava ficar submissa ao marido, porque surgiu da costela dele e era responsável pela sua desgraça.
Finalmente, a quarta norma defendia a fraternidade, porque esse casal teria dado origem à humanidade; logo, todos os homens seriam irmãos diante de Deus. Isso impediria o confronto entre as pessoas, mesmo diante de formas concretas de opressão social.
Verificamos aqui pontos básicos de nossa cosmologia que legitimam a dominação masculina e a estigmatização da mulher como ser perigoso. Esse mito é um produto lógico de uma sociedade controlada por homens e aproxima-se de outros mitos que apresentam os mesmos princípios, como os contos de fada e suas versões adultas contidas nas histórias de amor reproduzidas em diferentes formatos nos meios de comunicação. A redundância das mensagens em múltiplos discursos permite envolver pessoas com experiências sociais distintas e insinuar em suas vidas desde a infância, marcando profundamente a ideologia de uma sociedade.
© Gilda de Castro
Todos os direitos reservados.
A "Bíblia Sagrada" é, na perspectiva da Antropologia, um conjunto de mitos, pois suas narrativas constituem uma história sagrada para considerável parcela da humanidade. Apresenta situações exemplares que normatizam o comportamento, exigindo demonstração de fé pela supressão da dúvida crítica.
Seu texto mais conhecido é o primeiro capítulo do Gênesis: Deus criou um mundo perfeito, onde havia um ser superior, porque era sua imagem e semelhança. Mas houve o pecado original, desencadeando a desorganização no Universo representada pela fome, doença e morte.
A história da criação mostra pontos essenciais da sociedade hebraica que enfatizava a dominação masculina. A descrição de Jeová (Deus) é uma reconstrução do Patriarca: bondoso, sábio e generoso com seus filhos, controlava todos os membros da família.
Quando o Cristianismo difundiu-se pela Europa, houve a fusão da tradição hebraica com as tradições germânica e romana que também privilegiavam o poder masculino, pois os homens assumiam as atividades relevantes e as mulheres dependiam deles. Houve aceitação plena da "Bíblia Sagrada", que descreve a criação do mundo, apresentando uma ordem mestra que definia o lugar das coisas, a sucessão dos fatos e a hierarquia dos elementos. Tudo era perfeito com encadeamento adequado que finalizava no homem, criatura máxima constituída por uma parte material e outra espiritual, representando a síntese das coisas criadas e, por conseguinte, o poder divino. Isso lhe permitia sobressair como filho de Deus.
A perfeição da criatura humana adequava-se ao local onde vivia: o Paraíso. Tal proeminência, entretanto, isolava-o, porque as outras criaturas estariam aquém das suas qualidades; por isso, Deus providenciou-lhe uma companheira, mas ela seria apenas um complemento ou uma ligação da criatura-síntese da matéria com o espírito, porque surgiu a partir da costela do homem. Haveria assim uma dependência intrínseca da segunda criatura ao legítimo representante do poder divino. Ou seja, ela não teria existência própria e seu corpo seria uma extensão do corpo do companheiro.
Isso marcou nossa cosmologia e o homem assumiu autoridade absoluta diante da mulher. Ele pode usar o corpo da esposa como lhe convém, enquanto preserva sua autonomia para buscar outras parceiras. Mas, se ela copula com outro homem, o corpo do marido é também violado; logo, ele pode matá-la para eliminar aquela parte maldita que o incomoda.
Outro ponto importante refere-se à serpente que induz a mulher à desobediência da determinação divina. É um ser ambíguo, porque não apresenta as características básicas de sua classe, confundindo os sistemas de classificação: é um animal que não tem pernas. Muitos povos acreditam que as mulheres também não se ajustam às categorias taxonômicas dos seres humanos e tumultuam a ordem cósmica ao atualizar em seu corpo processos naturais, como menstruação e gestação.
Destacando essa proximidade entre os dois seres ambíguos, o mito retrata a crença de que mulheres e serpentes são seres perigosos; podem, portanto, provocar um mal intenso à sociedade que é um mundo masculino. Isso se transformou numa mensagem que norteou as relações de gênero no Ocidente: a mulher foi a fonte de desgraça do homem, provocando sua expulsão do Paraíso. Logo, deve permanecer isolada, sob vigilância permanente, para que não tome decisões que venham comprometer novamente o bem-estar social. E não pode aproximar-se de Deus como sacerdotisa.
Segundo o texto bíblico, depois de comer o fruto proibido, houve o caos absoluto. Tornou-se indispensável criar normas rígidas de comportamento para definir um estado, além da natureza, que protegeria o casal do desastre completo. Elas permitiriam a existência do homem depois da perda de sua perfeição, como criatura privilegiada de Deus, constituindo a cultura.
A primeira norma referia-se à moralidade quando o casal percebeu sua nudez e, envergonhado, procurou se cobrir. A segunda seria a nominação dos seres para propiciar o controle social sobre os indivíduos. O homem decidiu, naquele momento, que se chamaria Adão e sua mulher seria Eva. A perda do anonimato implicava a cristalização das ações de uma pessoa que precisam assumir responsabilidades, diante da possibilidade de identificação do autor dos eventos. A terceira norma relacionava-se à divisão sexual do trabalho, definindo que caberia ao homem a manutenção do grupo doméstico com seu trabalho na terra, enquanto a mulher teria filhos com intenso sofrimento. Ela precisava ficar submissa ao marido, porque surgiu da costela dele e era responsável pela sua desgraça.
Finalmente, a quarta norma defendia a fraternidade, porque esse casal teria dado origem à humanidade; logo, todos os homens seriam irmãos diante de Deus. Isso impediria o confronto entre as pessoas, mesmo diante de formas concretas de opressão social.
Verificamos aqui pontos básicos de nossa cosmologia que legitimam a dominação masculina e a estigmatização da mulher como ser perigoso. Esse mito é um produto lógico de uma sociedade controlada por homens e aproxima-se de outros mitos que apresentam os mesmos princípios, como os contos de fada e suas versões adultas contidas nas histórias de amor reproduzidas em diferentes formatos nos meios de comunicação. A redundância das mensagens em múltiplos discursos permite envolver pessoas com experiências sociais distintas e insinuar em suas vidas desde a infância, marcando profundamente a ideologia de uma sociedade.
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