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quarta-feira, 25 de outubro de 2017


O MINISTÉRIO



Por Everaldo Soares



    Ao ser informado sobre um conselho extraordinário realizado a 'portas fechadas' na Matriz, o vice-tesoureiro queixava-se de fortes dores de cabeça, enquanto se dirigia o mais rápido para lá. Ouviu falar do desaparecimento da quantia de dois milhões dos cofres do Templo.

    - Dois... milhões... - Berrava o presbítero delegado a presidir o Ministério, uma vez que o Ministro estava acamado e febril com a malfadada notícia.
    Pouco mais de uma dezena de membros da cúpula ministerial, ouviam o tom pouco pastoral das palavras que reverberavam na sala de audiência. Um dos missionários fazia comentários de forma arrogante e pretensiosa.
    - Estamos longe de fazer algum juízo de valor, até que os fatos sejam apurados. - Disse o Superintendente.

    Naqueles dias, a Matriz vinha recebendo a visita de homens importantes. Executivos... Contou o Secretário.
    - O assunto merece interesse. - Disse o Dirigente não menos sombrio do que seus colegas.
    Nada havia de novo, com o desaparecimento de verbas com superfaturamentos de manutenção, e serviços sociais. Com o correr do tempo, as coisas caiam no abismo do esquecimento, e não se falava mais no assunto.
    A notícia se espalhou com rapidez, os fiéis ficaram escandalizados e exigiam uma explicação. Dir-se-iam procurar até o fim do mundo.

    Dias depois, abriram investigação no mais completo sigilo, planejavam descobrir quem foi. O fato aconteceu do nada, como acontece a maioria das maiores desgraças, e o Templo inteiro ficou abalado.
    Alguns acreditavam que se tratava de uma conspiração para derrubar o Ministério, e se ocupavam em pensar nisso o tempo inteiro, outros esperavam que o nevoeiro de dúvidas passasse, tão logo quanto surgiu.
 
    - Não chegaram a um denominador comum - comentou um professor dominical com um colega. Ostentava uma fisionomia triste, e pelejava afugentar a desconfiança que recaíra sobre o Tesoureiro do Templo.
    - Não chegaram... - Disse. Depois saiu para refletir sobre o assunto, na mais completa solidão.

    - Veja o caso, - dizia o Dirigente para o Ministro - contra o acaso falam as coincidências.
    Dizia a respeito de rumores de que alguns membros do Ministério, cobiçavam a carreira política. Por algum tempo, discorreram sobre os perigos futuros que ameaçavam a administração do Templo.
    As evidências eram tão impalpáveis, quanto o vento ao redor de suas cabeças. O assunto foi tão comentado que até virou piada nas paginas dos jornais, e para desgosto do Ministro, o chefe da tesouraria, um antigo parente, há muito fora vice-prefeito numa cidadezinha interiorana do estado.

    Auxiliares e cooperadores iam e vinham como formigas ocupadas, logo se levantaram contra o Dirigente.
    - Quanto mais longe se vai... mais inalcançável e distante tudo fica... e a verdade pode estar debaixo do próprio nariz. - Falou um deles.
    Alguns membros do Ministério Perpetraram um plano:
    - Vamos pedir um sinal, - disseram - não nos é lícito questionar os sinais.
    Na terceira noite todos tiveram um sonho, e eles se puseram a falar deles... primeiro o Ministro.
    Ele se pôs de pé, estava confuso com o sonho, deixou escapar um suspiro... diz ter sonhado com o Presbítero despencando do alto da sacada do Templo, junto ao corpo, uma carta explicara o motivo do suicídio. Mas foi incapaz de explicar o sentido simbólico do sonho.

    Depois foi a vez do Dirigente que, segundo, sonhara com o Tesoureiro saindo para uma vigília no campo, e estava metido até as orelhas num poço de areia movediça, enquanto suplicava por ajuda. Também não pode traduzir o sonho.
    Um missionário relatou ter sonhado com Judas Iscariotes enforcando o Ministro com a própria gravata, porque estava entediado com o Ministério. Mas não deu garantias de seu sonho, nem tampouco sabia seu significado.

    Um sonho sucedia outro sonho, e de sonho em sonho a realidade se mostrou indispensável. Embora ninguém pudesse explicar, esperava-se a qualquer momento um sinal. Alguns membros importantes, patrocinadores da causa do Templo, vieram procurar o ministro, e não era outra coisa senão o assunto em questão. Dali foram ter com o Presbítero, depois com o Dirigente.
    - Talvez quem sabe tratar-se-ia de um oportunista, cuja a mão, a sorte afortunada veio apertar. - Dizia um deles.
    - Permita-me dizer que este Templo tornou-se um instrumento diabólico. - Disse outro.
    Naturalmente, umas quantas mais perguntas haveriam de ser feitas, o Ministério estava na mira dos olhos atentos dos fiéis, que disparavam acusações contra todos. Um desentendimento instalou-se dentro da tesouraria do Templo, levando o tesoureiro a ter um colapso nervoso. E eis o que seria de sua vida... morreu de morte repentina.

    Com efeito, a morte causou perplexidade em todos, ainda mais quando boatos circulavam que Deus levara a alma do pobre infeliz, como um sinal de maldição que se abateu sobre o Templo. Alguns se convenceram da malfadada história, enquanto outros presumiam uma maquinação dos sonhadores de plantão.
    Então deram por concluído o caso, convencidos por uma ideia distorcida da vida, onde ali, o sonho reina majestoso à quem lhe deseja pedir favor. Nem mesmo a consciência reclama seu sono, nada mais foi sonhado depois daquele dia, fora dito ali que não cabia a eles desprezarem os sinais, lembrou um Diácono.
    Tempos mais tarde só existia uma pálida lembrança do que havia acontecido. E, lá, continuam a vender esperança, com o correr do tempo as coisas cairiam no abismo do esquecimento, e não se falaria mais no assunto... nunca mais.

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everaldo.uni@gamil.com










terça-feira, 17 de outubro de 2017

DIÁRIO DE UM ESTRANHO



Por Everaldo Soares

 

    Brandon entrou em casa exaltado, trancou a porta e se dirigiu para a cozinha, onde Jéssica, sua esposa, brincava com o pequeno Peter. Era o primeiro filho do casal e tinha pouco mais de dois anos de idade.
    Ele saltou sobre o garoto como se agarrasse uma bola de futebol, depois ergueu Peter acima da altura de seus ombros, e olhou para o filho com um brilho peculiar nos olhos.
    - Brandon...! Tome cuidado com o menino - dizia Jéssica - lembre-se que Peter está em tratamento, e devemos ter o máximo de cuidado com ele.

    O pequeno Peter era o centro da atenções da família Monroy. O pai, empresário publicitário, e devoto assíduo do trabalho, agora dividia seu tempo entre a família e os negócios
    Uma das razões era que Peter, desde que nascera, tinha uma longa agenda de fisioterapia respiratória. Isso tomava boa parte do tempo do casal que, ambos, juntos participavam das sessões na maioria das vezes. Brandon chegou a parar de fumar em favor do progresso de recuperação do filho.
    Rara as vezes que Brandon não conseguia compartilhar com Jéssica as sessões de fisioterapia, por razões profissionais.
    Momentos depois Brandon já estava sentado no sofá da sala, com Peter no colo assistindo Tevê. Mera coincidência, o canal transmitia um documentário cientifico.
 
    - Bem vindo ao maravilhoso mundo de fantasias Peter. - Disse num tom jocoso para provocar a esposa que, apesar de não ser tão letrada como o marido, amava a ficção e o realismo fantástico.
    Ora, ora, - dizia Jéssica dirigindo-se para o marido - não é necessário dizer aqui que as coisas que existem neste mundo, existem por existir, e não necessariamente porque alguém acredita que elas existem.
    - Você acredita em Deus Brandon? - Perguntou ela.
    - É claro. E você sabe disso. - Ele se mostrou um tanto resignado com a pergunta da esposa.
    - Pois bem, acredite, é bastante improvável que se leve Deus para um laboratório de pesquisas, e prove a sua existência por métodos científicos materiais, como fazem os materialistas.
    Apesar do ceticismo, Brandon admirava a mulher que, para ela, o estranho não era estranho, era só desconhecido, assim como as ondas de rádio foram um dia, e hoje deixaram de ser. Ocorreu a ele, lembrar que Jéssica costumava dizer que, a maior doença do século vinte um era o consumismo. A única coisa estranha para ela, era ver pessoas tomando decisões erradas sob pressão da publicidade e propaganda, e comprando coisas desnecessárias, para depois se lamentarem como Madalenas arrependidas.

    Brandon tentou convencer a esposa a trabalhar com ele depois que o filho se recuperasse, mas ela recusou, disse que queria seguir a carreira do pai, e iria terminar a faculdade de biologia.
    O pai, biólogo e pesquisador, também estudara arqueologia na juventude, Jéssica passava a maior parte do tempo em sua modesta biblioteca, e cresceu lendo H.G. Wells, Jùlio Verne, Planck e Einsten.
    A física quântica, "ali há mais coisas estranhas do que Jéssica possa imaginar" pensava Brandon "universos paralelos, linhas de tempo...os cientistas tem teorizado teorias e mais teorias...e por fim, caem em paradoxos inexplicáveis." Mas a esposa insistia e Brandon apoiava em tudo o que ela fazia.
    Certo dia Jéssica deslocou o ombro na garagem de casa quando descia pelas escadas e caiu. Brandon Não permitiu que a esposa dirigisse até que se sentisse melhor, então ficou mais ausente do trabalho.

    Numa tarde, o telefone tocou no escritório da empresa, Brandon estava numa reunião importante, com clientes importantes. Jéssica disse que estava tudo bem e insistiu para que o marido continuasse com o trabalho, e que estava em condições de dirigir. Ele pediu desculpas para os clientes e disse que tinha assuntos de família para resolver, e saiu educadamente.
    Na outra semana ocorreu o mesmo episódio, mas Brandon estava lá. Com um gesto sutil ele pegava Peter nos braços, não queria piscar os olhos com medo de perder o filho de vista. Havia tanta inocência naquele sorriso, que valia a pena largar tudo para estar ali.
    E com isso as horas... os dias... e os meses iam passando, e Brandon e Jéssica aceitaram seus destinos, e Peter ficou curado. O pai que não bebia, bebeu de tanta felicidade naquele dia, depois balbuciou algumas palavras e dormiu com o filho nos braços.
    E assim, o tempo passou, e a medida que o tempo passa...para lá caminha os anos... e Peter tinha dezesseis anos.

    Era tarde da noite de sexta-feira, e Brandon se achava ainda no escritório, os funcionários já haviam ido embora. Ele permanecia na frente do computador finalizando algum trabalho importante. Lá fora, além das janelas, um vendaval terrível sacudiam os fios de alta tensão, chovia muito e os trovões eram assustadores.
    Então Brandon resolveu ligar para a esposa e dizer que iria se atrasar um pouco. Desta feita, concluiu o trabalho, fechou o escritório e se dirigiu para o estacionamento de carros.
    No caminho para casa, Brandon estava absorto entre uma ideia e outra, uma agitação começou a apoderar-se dele, talvez fosse a tempestade, não sabia. Quando virou uma das esquinas da cidade, não muito longe do trabalho, um relâmpago intenso explodiu a poucos metros de seu carro.
    Sem motivo aparente o carro apagou as luzes, e o motor parou de funcionar, instantes depois, ele estava com o veiculo parado em frente a um supermercado, com os vidros do carro todo fechado. A chuva e o vento avançavam espantosamente, ele tentou usar o aparelho celular mas estava completamente apagado, não havia ninguém na rua, ele olhou para o relógio de pulso os ponteiros estavam parados indicando meia noite.

    A cidade parecia um deserto vazio, enquanto pensava em como avisar a mulher, o carro estremeceu com o impacto de um pequeno outdoor que atravessou o para-brisa dianteiro, e por pouco não o atingiu. A chuva e o vento frio invadiram o interior do veículo, obrigando Brandon a buscar abrigo sob a cobertura escura de um velho armazém.
    O nervosismo cedeu lugar a um susto repentino, quando ele viu o vulto de um homem. Não tinha meios de vê-lo com muita clareza, mas a medida que seu olhos foram se acostumando com a escuridão, viu que se tratava de um mendigo deitado no chão áspero e sujo. Do seu lado, um cão magro e algumas latas de lixo lhe faziam companhia.
    O vento soprava cada vez mais frio, então ele resolveu se acomodar atrás do que parecia ser um contêiner de recicláveis, sentou ali com a cabeça sobre os joelhos, não havia nenhum perigo, apenas a modesta companhia de um andarilho e seu cão fiel.
    Um pensamento sussurrou na cabeça de Brandon, dizia ter vagas recordações do lugar onde estava, mas isso tinha pouca importância agora. Permanecia sentado... os olhos fechados... alheio... silencioso.

    - Um brinde a Mag...
    Brandon despertou assustado com o mendigo, não parecia estranho o som da voz do homem ele jurava nunca ter visto.
    - Um brinde a Mag meu amigo... e um feliz natal.
    O mendigo agora sentado, segurava na mão uma garrafa de bebida e estendia os braços para Brandon, como se o convidasse para um drink. Ele tinha a impressão que o outro estava embriagado, mesmo assim agradeceu o pobre homem que, de certo, confundira Brandon com algum morador de rua. Talvez quisesse conversar, por isso fez um comentário qualquer.
    - Há caminhos largos e estreitos, mas todos.. todos correm para o mesmo horizonte.
    Disse o mendigo por fim, sua voz era fraca e seu corpo tremia, mas Brandon podia ouvi-lo com uma clareza cristalina. Julgou que o pobre coitado estivesse delirando. Ele continuou:
    - O chapéu era mais importante do que a própria cabeça, e foi levado pelo vento no caminho, amigo...
    Dizia o mendigo de semblante taciturno. Virou a garrafa de bebida na boca, depois a segurou entre os joelhos e calou-se.
    Brandon olhou curioso para o homem maltrapilho à sua frente, antes mesmo de perguntar foi interrompido.
    - A alma é triste se escolhe um caminho triste... amigo.
    Voltou a beber e continuou a dizer coisas sem sentido, ou talvez fizesse algum sentido para ele próprio. Seguiu um minuto de silêncio, depois voltou a falar:
    - Quanto mais avançamos pelo caminho, há mais pedras para se retirar... pedras que nós mesmos colocamos lá.
    Brandon quebrou o silêncio movido pela curiosidade.
    - Por que está me dizendo estas coisas senhor? Eu não entendo o que quer dizer.
    - Estou reescrevendo uma história - replicou o mendigo.

    A abordagem da linguagem era coisa comum na vida e no trabalho de Brandon, uma vez que ele próprio vivia da comunicação e interação entre pessoas. Tentou uma conversa animada com o seu interlocutor, mesmo acreditando que o outro estava acometido por uma demência, promovida pelo uso excessivo de álcool. Perguntou sobre a natureza da história, e que podia confidenciar á ele, se assim desejasse.
    - Era uma história de amor, ah, esqueça isso meu caro. É fato que ele já nem sabe mais o que é amor.
    Assim que terminou de falar, voltou a beber.
    - Quem era esse homem... ele tinha um nome?
    O mendigo olhou indiferente para Brandon, depois respondeu num tom de protesto.
    - A vida faz pender o braço da balança para o lado da morte - disse levando a garrafa na boca, depois continuou - sobre os ombros da vida, repousa a morte, é tudo o que eu sei.

    Ele tinha a certeza, de que o pobre mendigo era mais uma simples alma desprovida de razão, isso explicava a estranheza de seus sentimentos e palavras.
    - A razão não pode explicar tudo o que acontece no mundo, meu amigo.
    Ficou surpreso com a afirmação do homem que parecia ler seus pensamentos. Tentou falar mas foi outra vez interrompido com uma pergunta.
    - Você joga cartas? ou...talvez...
    Abriu uma das mãos e mostrou o que parecia serem dados de brinquedo.
    - Não senhor, eu não gosto muito de jogos. - Explicou.

    Ele titubeou até Brandon e parou bem á sua frente, tinha o olhar intenso e penetrante, assim como o olhar de Brandon. Sentou bem próximo dele. Havia algo nele que sem dúvidas chamava a sua atenção, sentiu um estranho estado de espirito, mas não sentia medo. Apenas ouvia um sussurro delirante e sutil, que emanavam das palavras daquele homem.
    - Não tem importância - disse o mendigo - a vida é um jogo meu amigo. As cartas estão viradas para baixo e os dados são lançados para cima.
    - A vida considera todas possibilidades, não há cartas nem avisos, só escolhas certas ou erradas a fazer.
    - Mag veio ter comigo um dia, e me perguntou o que eu pensava sobre ela sair sozinha para dirigir. Não dirigia muito bem, na verdade era muito insegura.
    Falava encarando Brandon que o encarava de volta, absorto em pensamentos.
    - Eu deixei que Mag escolhesse, caso mudasse de ideia, ligasse para mim em meu escritório.
    Brandon ouvia o misterioso mendigo, que trazia nas mãos o que parecia ser um velho jornal. Havia ali, guardado em suas páginas, edições antigas de poesias, tratados de casamento, funerais, e noticias obscuras de outros tempos passados.
    - Aqui, - dizia o homem - neste diário amassado,está o nome de quem você pergunta. E quem era ele? Era aquilo que as palavras dizem o que foi, nada mais.
    - Vê este jornal, meu amigo, - folheou algumas páginas - há mais propagandas aqui do que assuntos relevantes. Elas são como cercas de arame farpado. Mag costumava dizer que chega a ser como feitiço, para quem se deixa enfeitiçar por elas, e todo feitiço um dia se volta contra o feiticeiro.

    Por um momento Brandon concebeu um breve pensamento infeliz, quando viu um dos anúncios comerciais, um entre cinco anúncios numa mesma calçada, debruçado sobre seu carro. Parecia coincidência, levando em consideração as palavras do mendigo.
    - São letras, cores e símbolos, e lâmpadas halogenas. Mas estão sempre lá para iludir pessoas. - Dizia o pobre homem.
    Ele foi para junto de Brandon e sentou ao seu lado, colocou o jornal ente as pernas e ascendeu um cigarro.. Em seguida colocou a caixa de fósforos no chão, junto a garrafa de bebida.
    - Quem era Mag? Inquiriu Brandon, curioso.
    - Mag saiu de carro com o filho para ir comprar um Hambúrguer na avenida central.
    - E o que tem de errado nisso?
    - Tem um palhaço amarelo de cabelos vermelhos na hamburgueria.
    - Um o que... ? - Brandon não entendia a resposta embaraçosa.
    - Todas as crianças amam o palhaço amarelo... mas o palhaço está pouco se lixando para elas. Nada há para ver ou ser visto nele, é apenas um palhaço que gosta de enganar crianças. - Calou-se novamente.

    Brandon ponderou um instante sobre o que acabara de ouvir. Olhou bem para o homem de rosto coberto pela espessa barba, e cabelos longos e negros, não o reconheceria por mais que tentasse.
    Quase desvanecido, o mendigo ainda podia ser ouvido, e sua voz era clara e serena.
    - Falei muito tempo, e você nem sequer perguntou de onde eu venho, ou meu nome. Sem que houvesse tempo para uma resposta, ele continuou seu discurso.
    - Nem de um lugar nem de outro, nem de buscar liberdade, nem alegria, nem de renunciar qualquer aflição deste mundo. E quanto são os mundos... e o mundo que me espera, como será? Não vale apena sair correndo por ai, numa maratona sem linha de chegada, amigo.
    - Apenas peregrino por esta ou aquela cidade, e sei que percorro sempre os mesmos caminhos, as vezes solitários.

    - Mas é preciso caminhar... nada há para temer no caminho, pois quem habita as areias paradas deste deserto, são os ventos que assentam a poeira suja sobre meus pés. De quando em quando, uma brisa forte faz esvoaçar o chapéu que é levado embora.
    Assim que terminou de falar, ficou em silêncio absoluto, com a cabeça pendida sobre um dos ombros... incapaz de dizer uma única palavra.
    Brandon fitou o pobre coitado por um tempo, depois tomado de uma curiosidade espantosa, pegou cuidadosamente o jornal no colo do mendigo adormecido. Começou a virar as paginas amassadas, mas não conseguia enxergar uma letra sequer.
    Riscou cautelosamente um fósforo e leu: 'vinte e quatro de dezembro de 2003, quinta-feira'

    Por que alguém guardaria um jornal por tanto tempo? Brandon se perguntou enquanto riscava outro palito de fósforo. Continuou folheando até o relatório policial. 'A policia informou que nesta quarta-feira 23, a dona de casa Mag... (...) a frase estava ilegível. Continuou lendo:...de vinte e oito anos , foi encontrada morta dentro de seu veículo na avenida central da cidade. Testemunhas alegam que ela perdeu a direção e, fatalmente, bateu contra um poste de iluminação. O filho de pouco mais de três anos que estava com ela, chegou a ser socorrido e levado ao hospital mais próximo, mas não aguentou os ferimentos e também morreu.'

    Brandon continuava a revirar as paginas e, de repente, percebeu que eram dois jornais. Abriu uma noticia como se abrisse uma caixa de pandora, por onde seus sentimentos mais obscuros pudessem escapar. As palavras desbotadas assombravam o espírito de Brandon enquanto ele lia... 'Publicitário conhecido foge de clínica psiquiátrica no quinto mês de internação. A família de Brandon Monroy disse que depois da morte da esposa, Magda Monroy, e de seu filho, Peter, em dezembro do ano passado, Brandon teria fechado a empresa e começou a beber compulsivamente.
    'A mãe do empresário contou que Brandon era um pai dedicado e amava muito a esposa. Ele não aceitou a perda da família, e se entregou à bebida e às drogas. Teria sido internado contra sua própria vontade, segundo amigos. Depois de conseguir fugir, ele nunca mais foi visto, a família cogita a possibilidade de suicídio, mas até agora a policia nunca confirmou essa informação.'

    Brandon sentiu a ausência total de forças nas mãos, o jornal caíra ao lado dele, depois seguiu-se um silêncio acompanhado de pavor. Os pensamentos cederam lugar a um vazio, como se aquilo fosse um sinal de aviso.
    De repente ele chora e grita o nome de Jéssica e Peter, enquanto ouve uma voz na cabeça. A voz chama por Brandon, entre sussurros e silêncio ele ouvia seu nome se repetindo como num gravador. A voz passou para seus ouvidos e soava cada vez mais forte... sempre chamando por Brandon.
    Subitamente foi despertado com uma mão tocando seu ombro, e uma voz gritando... "Brandon... Sr Brandon..."
    A tênue luz da manhã se fez revelar, e ele viu um policial agachado sobre os calcanhares na sua frente, um outro estava de pé e falava no rádio. Aos poucos, foi percebendo o movimento de pessoas e carros passando.
    Reparou que estava sentado na frente de uma loja de veículos, e estava muito confuso.
    - Sr Brandon, - dizia o policial segurando os documentos de Brandon nas mãos - sua esposa registrou queixa de seu desaparecimento nesta madrugada, logo depois da meia noite. Aquele carro é do senhor?
    Disse apontando para o veículo com um painel caído sobre seu para brisa. Ele olhou para os lados e não viu o mendigo, nem seu cão, nem latas de lixo. Estava só, sentado no chão de granito com as costas apoiadas numa das vitrines da loja. Ele olhou para o policial e assentiu positivamente.

    - Venha conosco senhor, - disse o policial ajudando ele a se levantar - talvez tenha que dar uma passadinha na delegacia antes de ir para casa. Eu entendo que há dias em que bebemos e perdemos a hora, quando não a casa. - Disse o outro insinuando que Brandon estivesse bêbado.
    - O que eu não entendo, - continuou - foi ter passado três vezes nesta mesma avenida, e não ter visto esse carro nestas condições.
    Seguiram pela calçada e Brandon insistia em olhar para trás a procura de um mendigo e seu cão, mas não havia mais nada ali, só uma sensação estranha, misturada com a sensação feliz de ir para casa... e rever a família.

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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O AMIGO OCULTO



Por Everaldo Soares



    O agente Morgan, da policia local, encontrava-se frente a mesa da sala de estar, a cena era de um surrealismo fantástico, não menos misteriosa do que a carta endereçada ao Sr Albert. De modo sereno, Albert olhava gracioso para Morgan, um leve sorriso no rosto, enquanto jazia imóvel na cadeira rústica de almofada.

    A mesa estava posta para dois; um candelabro, duas velas apagadas, uma garrafa de vinho, duas taças de cristais, pratos e alguns talheres.
    Tudo parecia perfeitamente normal para a ocasião de uma comemoração, uma vez que Albert, sessenta e dois anos de idade, viúvo a mais de quatro anos, estava fadado a um novo encontro. Confidenciou isso a Catherine, sua fiel empregada e amiga.

    Enquanto abotoava o seu melhor terno, dispensou a jovem mais cedo aquele dia. " Me deseje sorte Catherine". Foram suas últimas palavras.
    Tudo parecia normal, não fosse o fato mirabolante de que o Sr Albert estava morto naquela cadeira.
    - Isso é muito estranho - pensava o agente de policia confuso com o desfecho daquela carta, que por sinal, não possuía remetente algum.
    Enquanto pensava, fora interrompido quando a porta da sala se abriu de repente, e passou por ela um dos policiais com Catherine, da qual tomava depoimento, e a Sra Clemente, uma moradora local.

    - Sr Morgan, esta senhora é vizinha de Albert, e gostaria de falar com o senhor. - Dizia o policial, que assim como Morgan, conjeturava a possibilidade de um suposto suicídio a princípio, mas depois mudaram de ideia. Não havia razões aparente para isso.
    O agente de policia, enquanto tomava nota de tudo, ouviu a Sra Clemente dizer que, pouco depois que Catherine deixou a casa no último sábado, viu o Sr Albert andar pelo quintal enquanto conversava sozinho. Não era a primeira vez, dizia ela, que Albert invariavelmente comportava-se dessa maneira. Num minuto, demonstrava-se invulgar, noutro, discorria sobre um assunto específico: ora sobre seu trabalho, ora sobre as coisas que Mackenzie dizia sobre ele. Eram longas horas de conversa, que para ela eram desconexas e não faziam o menor sentido, dizia a Sra Clemente. Depois de algum tempo falando sozinho, Albert teria entrado para dentro de casa, ria muito, num instante cessou de rir, depois tudo ficou em silêncio.

    Catherine, ao contrario, assegurava que Albert era um homem sóbrio e inteligente, apesar de solitário. Não fazia sentido que ele hospedasse em sua casa um bando de quimeras, para dividir uma taça de vinho.
    O agente Morgan estava incomodado com o caso incomum e, de seu ponto de vista, tinha vontade de fechar os olhos e encerrar o caso. Mas sabia que não podia. Então voltou-se intuitivamente para a jovem empregada, com a pretensão de exorcizar o mal entendido do espírito controvertido que pairava sobre a casa do Sr Albert.

    - Catherine, encontramos esta carta no bolso do paletó de Albert, faz ideia de quem poderia ter escrito isso?
    Catherine estendeu a mão e pegou a carta tomada de espanto.
    - Uma carta!? Indagou surpresa. - Mas Albert não costumava receber ou enviar cartas. - Disse ela.
    Explicou ao policial que o Sr Albert era um tanto ocioso, quando o assunto era correspondências. Ele preferia os caprichos da tecnologia moderna e dos eletrônicos.

    Inquieta e confusa, tomou a carta nas mãos e sentou-se no sofá da sala. Logo notou que a letra era desconhecida, e o seu conteúdo um tanto rebuscado e confuso. Catherine pôs-se a ler a carta:


    Caro amigo Albert, ou devo chama-lo de irmão? Bem sabes que nunca te abandonei desde o dia em que nascemos.
    Era noite clara de verão como esta, o dia em que viemos para este mundo. Eramos filhos de pais perfeitos...eram mãos perfeitas que nos cobriam todas as noites frias do ano.
    E foi em uma dessas noites que nos apercebemos, e nunca mais nos separamos um do outro desde então.
    Durante noites sem fim, uma canção soprava como um vento calmo em nossos ouvidos até que um de nós viesse adormecer, depois seguia-se um silêncio que por si só era uma oração.
    Tudo o que sabíamos, era que vivíamos cercados por pessoas boas... mais tarde, descobrimos que há mais mal no mundo, do que se pode medir. A Terra era um celeiro de maldade... seu legado é tirania.
    Todas as manhãs, um raio de luz vermelho da aurora, tinge as calçadas por onde pés pesados passam todos os dias, indiferentes, onde há dor e gemidos.
    Dava para ler os pensamentos das pessoas nas ruas, como se olhássemos para um mural de avisos em suas cabeças. 
    Devo te dizer mais coisas... o barulho deste mundo está tirando o seu sono, a ponto de não se lembrar mais de mim. Por isso, vim por meio desta carta, porque quero te levar comigo para bem longe do mundo.
    Mas antes, vamos brindar nossa despedida, quero te contar um pouco das coisa que aprendi. A vida não termina com o fim desta vida, e este mundo não é real como pensa, é apenas um sonho, e é a vida e não o sonho, que buscamos.
    Devo te falar de outra coisa... no seio deste sono macabro, está uma juventude que não renuncia a sua meninice, mais tarde viram bandidos deploráveis, com direitos iguais ou melhores do que os justos que sonham com um mundo melhor.
    Pareceu-me uma colocação apropriada, uma vez que as pessoas se apressam para chegarem em suas casas, e se trancafiarem dentro delas, como prisioneira de seus lares.
    Há ainda uma última coisa que eu gostaria de dizer... eu me recuso a voltar a falar com Mackenzie, penso que ele presta um desserviço para pessoas como nós. Ele me acusa de uma porção de coisas que eu não tenho culpa, por isso você se afastou de mim.
    Mas hoje eu voltei, meu amigo... vamos brindar a vida que nos espera.

    Catherine terminou de ler e ficou perplexa com o conteúdo singular da carta. Enquanto divagava em seus pensamentos, o agente Morgam esperava de pé com as mãos cingindo a cintura, olhando para Catherine que balançava a cabeça negativamente sem compreender nada.
 
    O médico legista, informou que testes preliminares constatavam morte por causas naturais. Não havia vestígios de envenenamento ou qualquer outro agente patógeno externo. O coração do Sr Albert parou subitamente de bater. Desta feita, veio a óbito.
    O que mais impressionava, segundo o legista, era a aparente cumplicidade do Sr Albert diante das circunstâncias. Ele não insistiu em relutar, como fazem a maioria das pessoas, ao contrário, parecia estar em paz como se aguardasse a visita da própria morte.
    O silêncio da sala foi quebrado com a voz de um homem de meia idade, que atravessou abruptamente a porta.
 
    - Agente Morgan, - cumprimentou o policial, enquanto segurava na mão esquerda uma pasta de papéis - eu sou o Dr Mackenzie, vim imediatamente assim que tomei conhecimento do assunto por telefone, quando liguei para o Sr Albert pela manhã, e um oficial seu atendeu.

    - Dr Mackenzie! O nome do senhor consta na carta que Albert deixou - e entregou-a para o homem que pegou da mão de Morgan educadamente o manuscrito.
    - Eu não preciso ler esta carta, agente, posso adivinhar o que está escrito nela. - Falou de modo seguro e tranquilo, o Dr Mackenzie.
    Os presentes se entreolharam e esperaram que o outro se explicasse.

    - Então... - o agente Morgam cruzou os braços - em que pode nos ajudar Dr Mackenzie? O que tudo isso significa? Inquiriu o visitante, não menos misterioso que o defunto em questão.

    - Sou psiquiatra, e Albert era meu paciente a mais ou menos quatro anos. Ele me procurou logo depois que a esposa faleceu. Explicou o Dr Mackenzie.
    - Albert sofria de transtorno de múltipla personalidade. O sintoma se apresenta na mudança repentina de comportamento da pessoa, uma vez que a presença de duas ou mais personagens, assumem o controle do indivíduo.
    - São personalidades distintas, com seus próprios nomes e desejos. São complexos autônomos do ponto de vista psicológico.
    A Sra Clemente respirou ofegante, mas um tanto curiosa. Os demais ouviam atento a explicação do Dr Mackenzie.
 
    - O tratamento ajuda, mas a doença é crônica e pode durar a vida inteira. Em se tratando de Albert, ele adquiriu a doença na infância, e não tinha problemas nenhum em lidar com ela.
    - A esposa sabia que Albert tinha um amigo oculto, mas convivia bem com ambos. Aliás, foi esta personalidade que ajudou Albert a ser um homem bem sucedido, e um Ser prestativo que era.
    - Mas de alguns meses para cá, Albert recusava a falar com seu amigo, queria ficar só, então ele começou a influenciar Albert a abandonar o tratamento, e fazia sérias acusações contra mim.

    Catherine ouvia admirada, não tinha ideia de que o Sr Albert era portador de problemas psicológicos, nunca desconfiara de nada.
    O agente Morgan interrompeu:
    - Doutor, então o senhor quer dizer que esta carta foi escrita por...
    - Esta carta, agente - interveio o Dr Mackenzie - foi escrita pelo próprio Albert... se é que o senhor me entende. Disse o psiquiatra.

    - Em seguida, o Dr Mackenzie entregou para Morgan uma pasta contendo o relatório clinico de Albert, dos últimos quatro anos. Depois despediu-se dizendo:
    - Espero ter ajudado. - Morgan assentiu positivamente e agradeceu.
    As pessoas iam saindo uma após outra da espaçosa sala. Catherine foi a última a sair, e quando deixou a casa com os olhos lacrimejando, acompanhava os paramédicos que levavam o corpo do Sr Albert numa maca. Ela então se lembrou das suas últimas palavras quando referiu-se a um encontro. Por fim despediu-se dizendo: boa sorte... Albert.


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sábado, 16 de setembro de 2017



Um Manifesto Mil e Um Problemas




Por  Everaldo Soares

 

    E aconteceu que naquela noite os telejornais anunciaram a criação de um novo partido, diziam que os antigos fracassaram lamentavelmente. Gregório, politico bom e justo, protestou:
    - A cidade não precisa de outro partido, precisa de ver fazer valer as leis e promessas feitas pelos partidos vigentes, porque a lei não se aplica contra o descaso daqueles que fazem as leis, eles vivem à custa de contribuintes estarrecidos, pobres e oprimidos.
    Os discursos se repetiam, como se algum dia cessassem de se repetir, alguns de seus aliados mudaram de lado, outros ficaram divididos. O partido se fortaleceu, Gregório começou a olhar o partido como se olhasse para uma mulher, por fim, ele próprio, ficou atraído pelo novo partido.

    E eu ouvia Will, o apresentador lobo enquanto a chuva varria o telhado da velha casa, e o vento sacudia as antenas de vhf.
    Enquanto falava, sua imagem tremeluzia como um vulto, sua voz parecia um sussurro fantasmagórico. Então me lembrei do poeta que escreveu: "há de ter fé na palavra como um cão olha seu dono", e Will estava diante de uma cidade que olhava para ele, toda vez que se punha a falar.

    Durante a noite, eu conversei sozinho, depois ordenei minha voz que calasse... sobreveio o silêncio... e a palavra quebrou o silêncio outra vez. E eu falei aquela noite inteira... estava sóbrio.
    Noutro dia, a cidade amanheceu agitada sobre os arranha céus, condomínios, campos e favelas. As pessoas iam e vinham pensativas, ninguém sabia em quem mais confiar.

    - Acho que não sei em quem mais acreditar - relatou-me um morador da vila, desempregado havia quatro anos. Depois saiu andando, aborrecido, melancólico, e conversava sozinho. Disseram mais tarde que tentou morrer.
    Mas o que se havia de fazer! As pessoas estavam desiludidas e enfraquecidas, talvez fosse melhor morrer.
 
    Sobreveio a noite, e eu rezava todas as noites antes de dormir. Porque era bom dormir, para não ouvir os murmúrios da cidade.
    Certa tarde cheguei em casa, eu me achava diante do espelho da sala. Pensava sobre os problemas que afligiam as pessoas, me lembrei do mendigo deitado na calçada perto dali, mais adiante outro mendigo... e mais outro. Escutei Will, o lobo articulador, falando na Tevê:

    - Nos últimos anos. surgiu uma nova classe, e o índice de pobreza caiu significativamente. - Mas eu via miseráveis por toda parte.

    Um dia Will reportava com falsa serenidade, num dos cantos sombrios da velha cidade:
   
    - Um garoto de dez anos estava a disposição do crime e morreu por quase nada, não tinha pai nem mãe, a morte será como uma mãe para ele agora. - E fingiu compadecer-se do menino.

    Depois eu ouvi uma voz incomum, vinha do meu subconsciente, e dizia: ' a Terra, onde habita o homem, é um lugar muito estranho.'
    Então eu disse: estou pronto para descer pelo poço, ninguém vai sentir minha falta. A voz continuou: 'a interação mutua entre os seres humanos está enfraquecida.'
    Eu pensei que estava enlouquecendo. Novamente sobreveio o silêncio.
 
    Numa noite tranquila, eu caminhava pela vila, quando me deparei com um movimento luterano. De longe, uma voz conhecida proferia o seu manifesto...

    - O diabo esbarrou o pé nesta cidade senhores, - dizia o reverendo Josefo - e o pecado do demônio não se conta com o dedo das mãos. - Concluiu.

    A platéia escutava com avidez e eu acompanhava Josefo de olhos e ouvidos.
    - A corrupção corre como sangue venoso no coração desta cidade, penso que ela está infartando. - Depois advertiu:
    - Quando a ignorância é a dona do baile, ela dança com todos. "Sejamos astutos como as serpentes" na hora de escolher nossos representantes públicos.

    Na manhã seguinte, deu inicio ao último debate entre os partidos antes das eleições. A imprensa local convidou Will como moderador do discurso.
   
    Will provocou um dos partidos quando esbarrou num assunto polêmico: insinuou que alguns de seus partidários apoiavam a 'reserva de mercado' no município, desviando o debate de seus propósitos, daquilo que o discurso deveria ser. A opinião pública ficou confusa, ninguém sabia o que era reserva de mercado.

    Falsas acusações extrapolaram o limite de paciência de alguns membros do partido. O debate inflamou-se com palavrões, alguns políticos acusaram Will de ser um militante de esquerda. A opinião pública ficou ainda mais confusa, ninguém sabia de fato,o que era a esquerda. Era
bem verdade que para muitos o lado era o que menos importava.     Nos dias que se seguiram, vieram as eleições, e eu chorei muito naquele dia. As pessoas seguiram com suas vidas, queixosas, lamentando e praguejando.

    E tudo se repetiu como se algum dia cessasse de se repetir. Depois passamos quatro anos rindo de nosso próprio luto. A cidade morreu.


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everaldo.uni@gmail.com










 

 

 
 

terça-feira, 4 de julho de 2017



Por Everaldo  Soares


Prelúdio
Entre a Vida e os Sonhos





    Sobressaltado e confuso, Artur abriu os olhos, e um facho fino de luz incidiu sobre eles. Os primeiros raios de Sol, ganharam a sala por uma fenda semi-aberta da persiana. Ele ainda permanecia imóvel na poltrona, assombrado pelo fantasma de seu próprio silêncio. Vagueou por muito tempo, em terras desconhecidas nas fronteiras obscuras do inconsciente, até que uma leve dor no estômago o trouxe de volta.
    Ele recobrou os sentidos e os movimentos, ergueu o braço tapando com a mão o brilho ofuscante que perturbava seus olhos, e só então se deu conta do cachorro de pé em seu colo, apoiado sobre as patas traseiras. Latia freneticamente no pé de seus ouvidos.
    Por vários segundos, Artur observou silenciosamente o pobre animal agitado, só depois expressou um leve sorriso. Ele agora não sentia mais dor, nem medo, só estava feliz em ver o cão ali, nunca sentira antes tamanha felicidade. Segundos depois ele se levantou, e segurando o animal nas mãos, titubeou até o telefone que tocava incessantemente.

    "Senhor Artur!? Uma voz bem calma falava do outro lado da linha.
    "Sim, ele mesmo". Respondeu um pouco ofegante, enquanto colocava Ozzy no chão.
    "Falo do consultório da Dra Sofia, o Senhor agendou consulta para as nove horas da manhã de hoje. Pediu para que eu entrasse em contato, caso o senhor esquecesse."

 "Ah, puxa vida!" Ele esfregou os olhos, virou para o relógio na parede, os ponteiros marcavam nove horas...



*                    *                    *



    Assim que chegou em casa, Artur desceu do carro e conferiu o relógio de pulso. Marcavam onze horas da noite.
    Ele passou pelo  canteiro de jasmim, e viu Fí, entrincheirada atrás das margaridas do jardim da esposa. A gata siamesa espreitava  roedores e pássaros intrusos.
    Ele atravessou a porta da sala indiferente, deixou o vidro do carro aberto, e jogou as chaves sobre um Garrard Gradiente velho num canto da parede da sala.

     Assim que as luzes se acenderam, o pequeno vira-lata rachou o silencio da casa, com um ladrido espantoso de boas vindas ao visitante recém chegado. Artur rendeu-se a pequena criatura, que, a julgar sua aparência e agitação, reclamava sua atenção.

    "Suponho que esteja com fome amiguinho!" Falava enquanto despejava o pacote de ração para cães, na tigela do pequeno Ozzy, o cãozinho de pelos pardos, que  Artur  tratava como um membro legítimo da família.

    Satisfeito, o pequeno hóspede agradeceu o anfitrião da casa, com a educada maneira de retribuir dos cães.
    "Está bem coleguinha, agora precisa descansar." Acomodou o corpo frágil do animal, em cima de um tapete sobre a esteira da sala ao lado do painel de televisão. "Você terá um dia cheio pela frente, amanhã o novo carteiro precisa ser apresentado, você não acha?" Desta feita, despediu do amigo desabotoando a pulseira do relógio, e caminhou lentamente até a sala de jantar, onde, um porta- relógio suíço decorava o amparador de espelho. Guardou o relógio ali, cuidadosamente, e voltou para a cozinha.

    A visita indesejada da nostalgia, fez com que Artur começasse a andar abatido pela casa, ele andava muito nervoso naqueles dias, e tomava medicamentos para controlar a ansiedade.
    A morte inesperada da esposa a menos de quatro meses, abriu um abismo enorme que separava a saudade, do desejo de supera-la.
    A cabeça de Artur  tornara-se um esconderijo de sentimentos obscuros, tristeza e angustia reinavam o seu castelo interior. O nascimento prematuro do primeiro filho do casal, levou a complicações no parto, trazendo Júlia a óbito por uma grave  hemorragia. Mãe e filho morreram, levando com eles uma parte do jovem esposo.

    A bordo do navio fantasma, assombrado de solidão, ele navegou em águas profundas. Afastou- se do trabalho que tanto amava, se recusara a receber amigos e parentes, só a depressão lhe fizera companhia, e com ela tramara as mais terríveis armadilhas para a própria vida. Por sorte não caíra em nenhuma delas.
    Quando em quando ele passeava pelo quarto do casal, carregando no colo o cachorrinho que a mulher adotara meses antes, Júlia adorava animais e trabalhava numa clinica veterinária. Ela era membro de um grupo independente, que cuidavam de animais abandonados e depois doavam a pessoas interessadas, que gostariam de ter um animal como companhia.
    Nas vésperas de festas comemorativas, como o dia das crianças ou nas comemorações de final de ano, Júlia era voluntaria na paróquia Maria das Graças no bairro onde moravam. Lá, ela ajudava na coleta, e distribuição de brinquedos e alimentos. Dali, seriam transportados para vários rincões do estado. Marta supervisionava a atividade, e era ela sempre, a principal responsável pelos serviços filantrópicos, organizados pela comunidade. Não tinha muita saúde, pouco mais velha que Júlia, era um corpo frágil num coração íntegro e forte.

    Ele ainda guardava os pertences pessoais da esposa. Um cordão com um pingente de Santa Tereza D'ávila descansava por entre as paginas da bíblia aberta sobre o criado mudo, e vários exemplares da madre carmelita. Ela era leitora assídua de sua obra.
    Júlia tinha precedentes espanhóis, mas seus antepassados eram tradicionais hindus. O contato com os cristãos da Ordem na adolescência, fez acender uma chama na mina escura da alma de Júlia.

    Ela adorava a companhia do tio Filemon, embora fosse o tio biológico de Artur, irmão de seu pai. Ele era o Pároco responsável pela paróquia a qual Júlia pertencia. Filemon era um homem esguio e calvo, dono de um semblante calmo e alegre. Ao contrario, o sobrinho  não era muito alto como o tio, mais era um jovem robusto, de cabelos compridos e olhos castanhos.
    O padre Filemon era um homem inteligente, tolerante e um estudioso dedicado, para ele não importava a versão, mas sim, os fatos. 'A terra gira em torno do sol.' É um fato, dizia ele.

    Artur era um agnóstico evolucionista, mas compartilhava com a esposa e o tio algumas de suas reflexões. Mas existia um contraponto de idéias, uma vez que Júlia dizia que o ser humano  feito a imagem e semelhança do criador era de substância espiritual. Ele costumava, sempre que podia, advertir Júlia contra a natureza animalesca do bicho-homem.

    As vezes ele a deixava irritada com alguma brincadeira. Disse certa vez: 'Se você vestir um macaco e ensina-lo a pegar um táxi, ele continuará sendo um macaco vestido pegando  um taxi'. Uma vez Artur bebeu umas cervejas a mais, e disse para o tio que ele havia perguntado a um amigo judeu, o que passara na cabeça dos judeus que sobreviveram ao holocausto do terceiro reich. A resposta do colega foi categórica. Dissera: ' Na cabeça eu não sei, mas meu avô dizia que, quando ainda menino, fora deportado da Itália para a Alemanha, os judeus italianos que escaparam tinham o desejo no coração, de enforcar o Papa com as tripas do velho Mussolini.' Dizia o outro.

    'Não é tão simples assim!' Dizia o sacerdote virando uma taça de vinho tinto, enquanto Júlia preparava o almoço. 'Mussolini e seus capangas fascistas , colaboraram para a causa nazista. Mas não se esqueça meu rapaz, que o Santo Padre representa a Santa Igreja, e defende seus códigos morais de unhas e dentes. Não existe nenhum documento que comprove as acusações feitas contra o pontificado de Pio XII, com exceção dos escritores anticatólicos, o que vem a ser outro embuste.'

    Júlia era mais cautelosa,apesar de ser complacente com as palavras, nutria por elas o seu grande valor poético, e Artur sabia disso.
    Sempre muito tranquila, era difícil vê-la aborrecida com alguma coisa, era uma mulher muito bonita, tinha um rosto fino e "seus olhos"  eram  "negros" como a noite, ele costumava dizer invocando o espírito do poeta preferido de Júlia. Recitava:

    'Seus olhos tão negros,tão belos, tão puros,
assim é que são.
As vezes luzindo,serenos tranquilos,
as vezes vulcão.'

    Ela amava Gonçalves Dias, o poeta náufrago, mas seus poemas flutuavam na imaginação de Júlia, que os tinham como referencia de inspiração para suas próprias poesia

    Os dias que anteciparam a morte da esposa, também antecipavam a chegada do aniversário de Artur. Marcou profundamente a vida dele, os episódios que se seguiram após sua partida.
    Passaram-se algumas semanas, após o fatídico dia de despedida da mulher, ele começou a reorganizar a bagunça que o desdém pela casa se encarregou de trazer. Ele começou a organizar o guarda- roupas do casal, retirando todos os cabides com as roupas de Júlia. Pretendia doa-las.
    Viu no fundo da espessa base um invólucro, e verificou dentro que havia uma pequena caixa envolta em um papel brilhante e abriu. Dentro havia um porta- relógio, e um pequeno cartão nele dizia: 'Para Artur com carinho. Assinado:  Júlia. Feliz Aniversário.'
    Assaltado por uma sensação sem nome, ele sentou na beira da cama, e bem devagar, retirou o relógio da caixa e colocou no pulso. Guardou o porta-relógio em cima de um amparador, e nunca mais  tirou de lá. A mão do destino pode ter escondido de seus olhos o presente da esposa, mas não pode esconder  os sentimentos que Artur sentia  por ela até o seu ultimo suspiro. Aquele foi o seu maior presente.


*                    *                   *


     Nesta noite, o silêncio engoliu a casa, era possível ouvir do quarto o tic-tac do relógio de parede da cozinha. Um torvelinho de pensamentos começou a rodopiar na cabeça de Artur, ele sabia que o silêncio contava histórias, mas não estava disposto a ouvi-las.
    A brutalidade do poder do silencio, arrebatou seu espírito que agora planava pelos desertos da saudade e da solidão. Ele perambulava pela casa feito um cão perdido, correu até o espelho a procura da face perdida do verdadeiro Artur, mas não encontrou, viu um zumbi deprimido de aspecto horrível fadado a vagar sem rumo.
    Sussurrou baixinho temeroso de ouvir as próprias palavras virando-se para a porta. A vida tinha esconderijos, mas Artur não tinha a intenção de se esconder, ele passou os olhos pela casa parado no hall da sala. Ah sim! tinha uma saída, talvez duas, ressuscitar aquele rosto fantasmagórico sepultado no espelho e seguir em frente ou...
    Começou a andar de repente de um canto a outro da casa, e voltou os olhos para uma garrafa de vodka em cima do balcão da sala. Ele investigou as opções, dava a impressão que ela prometia solucionar o caso clássico do pensamento sádico em estado de choque.

     Ele não era um amante da bebida, mas pensou: 'Que importa!' Além do mais, o chão da sala  é o  limite. Levantou a garrafa para um trago enquanto vacilava caminhando tirando os sapatos dos pés. Tomou o controle nas mãos, apagou a luz, e caiu na poltrona em frente a televisão.

     Artur acolheu mais um gole de bebida no estômago vazio, e colocou a garrafa no chão sobre o espesso tapete. Depois guardou o disco vinil dos beatles que mais amava: a banda do clube dos corações solitários do Sargento Pimenta.
    Sobre uma mesa rustica arqueada ele abrigava sua coleção completa de álbuns, e mais algumas revistas cifradas para violão que ele colecionava. Ganhara de presente do pai, junto com um violão, quando só tinha treze anos, pouco antes de sua morte repentina.
    O jovem Artur entrara em estado de choque, nunca conhecera a mãe biológica, e seu pai, segundo diziam os parentes próximos do menino confuso, era Deus quem o havia levado, junto com sua mãe. Que tipo de Deus levaria tudo de uma criança? E por qual razão o faria?
    Estas foram as perguntas que o jovem Artur se fez, logo que perdeu o pai. Ele parou de tocar com o coral da igreja, se recusara a receber o sacramento da crisma, arregaçou as mangas e foi trabalhar para ajudar sustentar os irmãos mais novos. O tio que era padre, teve profundo impacto na vida de Artur, foi ele quem ajudou a cuidar da família. Artur tinha profunda gratidão e respeito por ele.

    Voltou para os noticiários de tevê que cobria a seguinte matéria: Outro caso de morte envolvendo policiais nos Estados unidos causam revolta e protesto. Na ultima quinta feira um homem negro foi morto com cinco tiros por dois policiais branco, a acusação contra os policias é de racismo. Os policiais alegam legitima defesa, mas o caso está sendo investigado. 

    Enquanto a reportagem notícía o faticídio com imagens de violência e caos em frente a delegacia de policia local, uma barra de noticias  mostrava a seguinte nota: Um terrorista abriu fogo no sul da Flórida deixando vários mortos e outros tantos feridos. 

Outra noticia adjacente dizia: A Câmara dos Deputados da Itália aprova o casamento entre os homossexuais.

Segue noticiando: A maior autoridade católica, o Papa, é acusado de omissão de caso de abusos sexuais contra crianças, por parte de religiosos que exerciam atividade sacerdotal.

     'Ora! ora!' Dizia consigo mesmo. 'Um negro é perseguido! Um terrorista passeia pelo parque!.
     'gays abandonam seus armários!
     'Tarados celibatários deixam seus gabinetes para viverem suas fantasias, com a benção da santa ignorância daqueles que escrevem a cartilha do bom cidadão.'
    Com a visão meio turva e os reflexos alterados deixou o controle cair no chão.

    A noite já velava o sono entorpecido de Artur, quando uma voz chamou sua atenção no vídeo. Recostou a cabeça sobre a poltrona e levantou penosamente as pálpebras dos olhos.
    Uma voz intimidadora falava á uma multidão de pessoas, e enquanto gritava, trazia na mão direita erguida uma bíblia. A voz espalhava a culpa enquanto disseminava o evangelho da mediocridade.

    'Ah! O teatro dos oprimidos protagonizado pelos vigaristas de plantão!' Pensava semi-lúcido.
     A voz gritante no púlpito, anunciava a parúsia e exigia reparação com altos tributos para a salvação das pobres almas. O profeta de promessas vazias patrulhava com olhos famintos a multidão extasiada de presas fáceis, imediatamente envelopes eram distribuidos, e somas incalculáveis eram depositadas.

    'Figurões trapaceiros.' Dizia moribundo fechando lentamente os olhos, com a cabeça agora totalmente reclinada na velha poltrona.
    Cochilava semi-lúcido enquanto ainda pululavam em seus pensamentos algumas palavras:

     'No vazio da crise existencial...
    'O rebanho vencido canta a canção dos lobos...cultuam charlatães inventores de falsas doutrinas...
    'No vazio da crise existencial...habitam todo o tipo de superstições...
    'No solo fértil da alma adoecida...
    'Onde brota o pavor da morte e do inferno...bispos milionários constroem o seu paraíso...
    'Gente da pior espécie...
    'No vazio da crise existencial...

    Um torpor intenso se fez cair sobre o corpo do jovem rapaz, vencido pelo estresse e cansaço.


*                    *                    *   


     Tempo se passou, desde que a noite escureceu de vez os olhos de Artur. De repente, despertou assustado com a televisão desligada. A casa estava toda escura, e ele pensou que a eletricidade fora interrompida por um curto-circuito interno , ou, alguma coisa acontecera na rede de transmissão externa. Permaneceu sentado por alguns instantes, examinando qual das duas opções seria a pior.
    Segundos depois ele começou a ouvir um som agudo, parecia  um cilindro de alta pressão se despressurizando por uma fenda extremamente pequena. Uma corrente de eletricidade estática apareceu na tela do televisor, e cintilava intermitentemente. Enquanto pensava no que poderia ter causado o problema, a imagem assimétrica da tela se apagou abruptamente.

    Neste instante, sentiu um pouco de vertigem e ficou inquieto. Observou que no parapeito da janela, um pouco acima da persiana, um ponto de luz incomum piscava, enquanto alternava suas cores entre o vermelho e azul. Um calafrio percorreu seu corpo que ficou paralisado na poltrona, ele sentiu as pernas começarem a doer.
   Inesperadamente aconteceu uma coisa estranha; a pequena esfera luminosa explodiu num feixe de luz vermelha que partiu a escuridão da sala de um extremo a outro. Uma atmosfera tensa tomou conta do lugar, os sentidos de Artur ficaram alerta e ele estava apavorado tentando gritar mas não conseguia.

    A luz começou a ziguezaguear numa velocidade constante de um canto a outro da sala, passando por sobre sua cabeça, e ele acompanhava sua trajetória com os olhos arregalados de pavor.
    Tentava se mexer mas não conseguia, lembrou então de Júlia e do tio e começou a balbuciar alguma oração. Um barulho estranho e ensurdecedor ecoava nas paredes, e o medo se apossou de seu juízo, o beijo da morte parecia cortejar a face aterrorizada de Artur.

    Um brilho intenso e claro ia aumentando sua velocidade oscilando cada vez mais rápido e escaneava todo o lugar. Quando sua velocidade se tornou desmedida, ele parou de forma abrupta no ponto inicial de seu trajeto, na forma de uma pequena esfera latejante que pulsava sua luz.
    Artur não podia compreender o fenômeno, não num nível de consciência  que se depara com os limites dos sentidos. A esfera explodiu numa luz de néon intensa, deixando-o cego na mesma hora. E quando suas pupilas dilataram ele pode lentamente voltar a ver, e viu o que era incompreendido para sua mente objetiva e confusa.

    A cena era de um clarão que envolvia toda a sala, a luz já não incomodava mais os olhos da criatura que se achava inerte sepultada ali. De tão clara que era o seu brilho, sua luminosidade penetrava as paredes e os objetos da casa, tornando-os transparentes como se fossem feitos de vidro. As paredes eram como vitrines, expondo a forma nítida e clara daquilo que até então, era intransponível aos olhos. Dava para ver a garagem através da ampla porta de madeira. Fí, a gata siamêsa,  dormia tranquilamente sobre o teto do carro, e quando Artur levantou um dos braços vagarosamente, pode ver os ossos do metacarpo da mão como se olhasse através de um raio-x, e ficou chocado com o que estava vendo.

    O barulho agudo de antes voltou a zunir em seus ouvidos, só que desta vez mais alto. A temperatura subiu instantaneamente por um curto período de tempo, e depois caiu de repente.
    O zunido aumentou gradativamente até tornar-se insuportável, ele estava a beira de perder os sentidos, quando aconteceu uma coisa extraordinária: seus sentidos ficaram mais sensíveis, e ele podia ouvir o som das batidas do seu próprio coração. Um cheiro etílico forte sufocava Artur, e uma brisa fria percorria sua pele, embora estivesse  calor.

    Assim como as sensações surgiram, elas desapareceram repentinamente e houve uma pausa seguida de silencio. Depois uma vibração calma zunia nos ouvidos de Artur, que a essa altura, já não pensava em mais nada.
    Logo em seguida um nevoeiro de luz branca tomou conta da casa, e cobriu todo o lugar, um espirito numinoso tomou conta de sua alma,  e ele sentiu seu corpo ficar mais leve na poltrona da sala. O brilho fundiu-se a casa num branco tão intenso, que não se podia ver mais nada ali, e ele se sentia ainda mais leve.
    Um relampejo faiscou de dentro do nevoeiro anulando completamente a gravidade. Artur sentiu seu corpo flutuar da poltrona, e ser sugado para dentro do que parecia ser uma câmara de vácuo.
    A sensação era de haver uma ausência total de todas as percepções. Ele não sentia medo, nem dor, nem alegria e nem tristeza. Até sua localização espacial e temporal eram imprecisas, porque ele não possuía nenhuma substância ,apenas sua consciência estava alerta ali, naquele deserto vazio de sentidos.


*                    *                    *

    Passado algum tempo, não se podia precisar quanto tempo passou, uma ampla faixa de luz surgiu ao redor do espaço vazio e escuro. Não era uma redoma, mas sim uma faixa como uma parede de luz arredondada.



*encontre o conteúdo restante deste livro no link abaixo:


http://www.livrariacultura.com.br/busca?N=102281&Ntt=prel%C3%BAdio+entre+a+vida+e+os+sonhos

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O S

O B S E R V A D O R E S








    Bem longe, numa terra distante, para além das montanhas verdejantes que separam o povoado do norte, das ravinas e regatos, o ancião ponderava sentado junto a mesa, a dar com os cotovelos debruçado sobre um velho manuscrito, enquanto a penumbra afugentava a escassa luz da velha e rústica biblioteca.
    Ele levantou-se arquejante apoiado num velho bordão. O peso dos anos revelava-se no seu olhar pesaroso, nas barbas grisalhas, e seu olhar temeroso. Tateou vagarosamente cada livro , correndo as mãos pelas arestas das prateleiras ao longo do enorme corredor. O velho ancião, procurava desconsolado por algum documento em particular, queria aproveitar os últimos vestígios de raios de sol, que penetravam as altas janelas de frente para o corredor final. Contudo, a fuligem de carvão gerada pela queima de madeira do lado externo do recinto, criou uma nuvem densa de fumaça, que sabotou os vitrais da velha biblioteca.

    La fora, além do espesso muro que unia a esplanada ao antigo Mosteiro, alguns noviços da ordem trabalhavam incessantemente, ateando fogo a troncos e raízes de árvores de toda espécie. Com exceção do salgueiro, que era uma planta de importância peculiar, na vida monástica daquelas almas devotas.
   A produção de carvão, era fundamental para a provisão de energia para o Mosteiro. A antiga fortaleza construída naquele ermo vazio, cobria uma área de mais de quinze mil metros quadrados, e abrigava mais de trinta monges. Alguns eram leigos, que descobriram desde cedo a vocação para uma vida reclusa. Outros, foliões aventureiros que mal podiam distinguir a árvore da madeira, e sucumbiam ao novo estilo de vida. O velho Monastério era uma instituição auto-sustentável, mas, a certa altura, a cidade era indispensável. Pois, fazia-se necessário a aquisição de produtos que não poderiam ser manufaturados ali. A eletricidade era praticamente inacessível, porque o Mosteiro estava fora das raias urbanas.
    
    No alto do campanário, bem acima do portal de entrada do velho Mosteiro, ouve-se as batidas de um sino. Uma, duas, três...Um nevoeiro fino cai sobre a densa floresta temperada, enquanto o crepúsculo da tarde riscava no horizonte, um fio de luz vermelho azulado. A fumaça e o fogo se dissipavam com o nevoeiro e a brisa úmida, por fim, o dia também desaparece, cessa...não mais existe.
 A biblioteca era enorme, e preservava relíquias antigas como pinturas medievais que a história quase esqueceu. Ali também, guardavam-se registros de compra e venda de propriedades, entre outros assuntos administrativos do Clero. O ancião continuava a procurar aflito, pelo labirinto estreito de corredores, por entre calhamaços e papéis pálidos.
    Sob a luz diminuta de uma vela quase apagando nas mãos. Ele retirou do volumoso acervo enfileirado, um velho caderno de paginas surradas.
    -  Hum! Deixe me ver...
    Pensava só, o sacerdote, abrindo o manuscrito.
    Enquanto folheava as páginas do caderno, apoiado sobre o anteparo da janela, a medida que a chama da vela diminuía, a fumaça escura queimava os olhos do velho abade que a essa altura bocejava. Sondou os pensamentos, e julgou que o sono lhe roubara as forças que restaram, por fim... Então, logo depois, ouve-se o sussurro de uma voz solitária.
    -  Oxalá encontre o que veio aqui procurar Reverendo!
    O jovem monge atravessou a porta aberta do escuro recinto, enquanto o ancião fitava-o de olhos arregalados, tomado de susto e espanto. O noviço devolveu o olhar com reverência e, educadamente dirigiu as palavras: 
    -  Sua benção, Padre. Perdoe-me se eu o assustei, pensei que talvez fosse melhor acender as lamparinas.
    O jovem demonstrou grande preocupação, quando viu no rosto do ancião uma expressão intimidadora. Lembrou-se então, que o magistrado não gostava de ser interrompido quando estava na biblioteca. O velho protestou com uma resposta brusca, ordenando que o moço permanecesse calado.

    O jovem monge assim permaneceu, ali em pé, parado em frente a janela rebuscada, decorada com pinturas de anjos e mártires Cristãos. O corpo frágil, de rosto magro sob a túnica negra, fazia da escura e enorme sala, um lugar mais sombrio ainda do que já era antes. O ancião continuou a folhear o caderno por alguns instantes, em seguida fechou-o devolvendo às prateleiras empoeiradas.
    Depois, tomou o cajado nas mãos e, segurando a vela, caminhou na direção do monge que o aguardava. Só então, quebrou o silêncio depois de dar a benção costumeira, e seguiram direto para o refeitório.
    O sacerdote lembrava o noviço, como se recitasse um texto sagrado, da suma importância de tudo correr perfeitamente bem para a cerimônia do domingo próximo, que celebrava a missa dos lavradores.
    -  Não devemos esquecer filho, de que iniciaremos o coro com um Canto Gregoriano  -  disse o ancião de modo imperativo.
    -  Para isso, escolhi um belo hino de abertura, num velho hinário da biblioteca. E cuidarei para que alguns Copistas, cuidem de reproduzir algumas dezenas de cópias. Assim salvaguardamos a tradição da Ordem.
    O rapaz apertou levemente com as mãos, o escapulário pendurado no peito, hesitou um pouco, depois perguntou:
    -  Reverendo Mestre, não temos tecido suficiente para confeccionar trajes maiores, em caso de eventos públicos como esse.  -  O sacerdote fez uma ressalva.
    -  Escute isto meu jovem, um traje não faz um monge  -  respondeu de modo tolerante, o ancião.
    -  Contudo, este Mosteiro é um lugar sagrado construído para a adoração de Deus, e não de monges. Está claro, filho?

    O noviço ouviu com perplexidade, mas depois compreendeu o velho abade. No fundo, pensava, o Ancião tinha razão, apesar de ser um conservador religioso e pouco tolerante na maior parte do tempo. O velho referia-se aos costumes da tradição dos monges, em caso de adoração pública, substituir as vestes usadas dentro do mosteiro por uma túnica maior. O que não era prioridade, uma vez que o Monastério passava por precárias situações econômicas.
    Assim que deixaram a biblioteca, o aprendiz e seu tutor podiam contemplar mais adiante, além do claustro, onde jazia um oponente salgueiro que pendia seus ramos tristes no jardim, o enorme ateliê. Ali, outros monges se ocupavam em diferentes oficios: restauravam artefatos de madeira, confeccionavam imagens artísticas, ou teciam em teares manuais. Estes seriam depois vendidos para fora do Mosteiro, mas boa parte da produção, era para o consumo interno do prédio.
    Caminharam silenciosamente, rumo a missão piedosa de contemplar a última oração do dia. A sétima oração, encerrava mais um dia de devoção e trabalho coletivo, antes da ceia vespertina. O sino toca sete badaladas, todos reuniram-se e, de joelhos, voltaram-se para a Igreja do outro lado do jardim, que olhava majestosa para o refeitório. Um pouco atrás, encimado sobre o vasto balcão da cozinha, há um aviso que diz: "orai e trabalhai".*
   Em seguida todos se levantam, fazem o sinal da cruz e, em silêncio contemplativo, seguem para as mesas dispostas ao longo das paredes.


____________________***____________________



    Um dia revela outro dia em continua monotonia, o jovem noviço parou em frente à Igreja, Tinha à mão um regador de lata e uma pequena adaga, voltava da horta, onde lá trabalhava junto com outros iniciantes da Ordem. Vislumbrava a poucos metros da fachada da Igreja, centro sagrado do Mosteiro, duas grandes pilastras que se erguiam imponentes, como se abraçassem gloriosas as altas paredes da entrada do Templo. Ao centro, pouco abaixo do pórtico, a enorme porta arqueada partia-se em duas metades, convidando a todos a compartilharem o mistério e a adoração divina.
    Bem acima da coluna principal, duas pilastras pequenas e pinaculares , ostentavam ao meio uma enorme cruz de madeira, já apodrecida pela ação do tempo, para lembrar o Martírio de Cristo. Logo acima, no alto topo da velha cruz, canta um pássaro uma canção apaixonada por amor a amada, que jaz em algum lugar, esperando nas encostas da imensa mata, o cantor da floresta.
    O jovem encantado olha bruscamente para cima, e, com um gesto súbito e descuidado, espanta a bela ave que foge voando. Ganha os céus...desaparece. Ele aproximou-se da porta, uma esteira de palha estendia-se do lado de fora da soleira, logo abaixo do alpendre. Tirou as sandálias sujas de lama e, cautelosamente colocou sobre o chão batido, os apetrechos de trabalho que trazia nas mãos. Seguiu munido de curiosidade à extrema direita da parede, e apalpou as figuras de baixo relevo, eram muitas, estavam por toda parte, contornavam o cimo da porta terminando no extremo esquerdo da fachada.

    O noviço ponderava, enquanto contemplava as imagens e inscrições arcaicas. Ainda não tinha professado os primeiros votos, e as vezes sentia que os dias e noites eram intermináveis. As dúvidas assombravam a pobre alma do rapaz, que, procurava afugentá-las com orações e penitência.
    Voltou-se para as figuras; a última ceia. A primeira gravura mostrava Jesus e os apóstolos, o Mestre compartilhava o pão e o vinho, Judas ao lado de Jesus, "Judas"  -  pensava  -  pobre diabo. Profetas de tamanhas barbas, todos, e todos pareciam agitados sobre a mesa. Mas Jesus, ao contrario, permanecia sereno e calmo.
    Um pouco mais acima anunciava o nascimento de Jesus. Maria segurava no colo a criança, enquanto alguns Reis do Oriente presenteava o menino Salvador, seguidos de uma estrela cadente, que pairava sobre suas cabeças. Mais adiante, cenas do cativeiro babilônico, depois via-se a adversidade de jó e a genealogia dos Reis. Olhando para o meio, depois mais para baixo, no canto inferior esquerdo, via-se Josué, com resplendor da providência divina, abalar os muros de Jericó.

    O iniciado cortejava a rude pintura já desgastada, correndo as mãos sobre a camada saliente da imagem, eram as últimas gravuras. Uma delas lembrava Abraão, segurando o que parecia ser, objetos primitivos, enquanto a outra parecia ter entre as mãos, uma taça. Ele meneou a cabeça negativamente, sem entender.
    -  Melquisedeque  -  disse uma voz conhecida logo atrás do noviço que, imediatamente, foi tomado de espanto e sentiu-se desconfortável de estar ali.
    -  Reverendo Padre!!  -  solene e alegre, tão logo dirigiu-se com reverência ao sacerdote, que o abençoou sem formalidades.
    O aprendiz curioso, explicava que vinha da horta do Mosteiro, para buscar água na cisterna do jardim. Quando reparou nas belas figuras, não conteve a curiosidade de vê-las de perto. O ancião interrompeu, e fez sinal para que o jovem parasse de se explicar. Depois observou:
    -  Curiosidades compartilhadas, são conhecimentos divididos em partes, onde a parte de um, é a parte de todos.
    Aproximou-se do jovem monge, o ancião, direcionando o bastão para a enorme parede, sem desviar os olhos da fachada da Igreja, e pôs-se a explicar.
    -  Veja filho! Notei que você viu, e até tocou nestas pinturas.
    O velho deu uma pausa, e aproximou-se até tocar com a mão em uma das figuras, enquanto com a outra mão apoiava-se no cajado torto. Desta feita, comentou com o jovem , que a essa altura, espreitava o magistrado com certa desconfiança e admiração.

    -  Repare nesta imagem! A expressão de seu rosto...os gestos imperativos, ora contemplativos. As paredes parecem sussurrar...não!? O que me diz disso, hein?
    A pergunta pegou o noviço de surpresa, ele olhou para o ancião, depois voltou-se para as imagens. Ia dizer alguma coisa mas foi novamente interrompido.
    -  Você disse que não se conteve quando viu as "belas figuras", concordo que é verdade. Mas eu vejo mais do que belas figuras meu jovem, vejo mais de vinte séculos de histórias encerradas nesta parede.
    Respirando com certa dificuldade, o velho abade apontou para uma figura em particular.
    -  Aqui, por exemplo!  -  conjeturava que o aprendiz tinha dúvidas sobre a personagem em questão.
    -  É Abraão, ele entrega o dízimo à Melquisedeque, que, por sua vez, oferece pão e vinho e abençoa o Patriarca.
    Ele indicou para o jovem, a imagem do homem que segurava uma taça.
    -  Quem é Melquisedeque?  -  perguntou o rapaz quebrando o jejum do silêncio.
    -  Ninguém sabe,  -  respondeu um tanto embaraçado a pergunta  -  sem genealogia, nem pai nem mão, nem nascido nem morto. Sua história se perdeu nas brumas do tempo.

    Viu que o iniciado tinha perguntas, e não hesitou em permitir.
    -  Então isso explica porque Jesus compartilhou o pão e o vinho com seus discípulos. Isso já era uma tradição antiga entre os Israelitas.
    O Ancião ficou pensativo por alguns instantes, depois retomou a palavra.
    -  Talvez seja melhor começar pelo inicio filho, é inútil ficar balindo por ai palavras repetidas, sem saber o seu significado. Tem coisas que o machado não penetra, como por exemplo, a camada mais dura da cabeça de um tolo. Mas a palavra, está sim, traspassa para além da cabeça dos sábios.
    Voltou-se para a fachada do Igreja, onde jazia as primeiras gravuras. Então disse:
    -  Não se trata de tradição meu rapaz, nem sequer existiam tribos de Israel naqueles dias.
    Juntos, eles afastaram-se da parede à uma certa distância, de onde pudessem contemplar as imagens de uma só vez.
    -  Isso,  -  o velho abade sinalizou para o primeiro extrato  -  não é um dízimo da maneira como você entende. São espólios de guerra.
    O jovem ficou pálido com a afirmação de seu tutor, não podia imaginar Abraão, o Pai dos Patriarcas, envolvido em assuntos militares. Perguntou um pouco apreensivo:
    -  De onde viria?
    -  Voltava de Sodoma, de abater seus Reis, e saquear a Cidade.  -  Respondeu.
    O magistrado deu uma pausa, em seguida explicou para o noviço confuso, o contexto histórico no qual o Profeta vivia.

    -  Os Cananeus  -  dizia  -  eram adeptos de estranhos cultos, e perpetravam toda a sorte de crimes espirituais. O mundo andava de pernas para o ar, as divindades Cananeias tinham suas próprias jurisdições, e,  as pessoas empedernidas, tagarelavam com seus deuses que nada faziam por elas. Deuses esses, nem melhores, talvez não piores do que todos os outros.
    Durante sua passagem por Canaã, é provável que Abraão teve contato com as tradições locais, inclusive tinha conhecimento de EL, o deus supremo do panteão. Só bem mais tarde, o politeísmo Cananeu vai entrar em rota de colisão com os filhos de abraão, que professavam a fé num Deus único. Isso causou tamanha intriga de família, e estas velhas paredes dão testemunha do que eu estou dizendo.
    Novamente fez menção as figuras, desta vez, mostrou Josué, com a espada embainhada sobre as ruínas de Jericó.

    Um raio de luz rasgou as nuvens cinzentas logo acima do mosteiro, e refletiu sobre o cimo da porta, um pouco abaixo da coluna compreendida entre as pilastras. O ancião chamou a atenção do aprendiz para um dos caixilhos acima do pórtico, onde jazia quase oculto, uma das figuras mais emblemáticas da história.
    Perguntou para o inexperiente aluno, se ele reconhecia as imagens e, o que ela encerra no contexto de seu tempo.
    O jovem olhou minuciosamente para as figuras; um homem decrépito sentado trazia um semblante amargo e triste, ao seu lado três homens, todos pareciam falar ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, todos expressavam gestos altivos.
    -  Decerto que é Jó.  -  Respondeu de modo reticente.
    -  Seus amigos provavelmente censuram-no, pela falta que ocasionou na sua calamidade e desgraça.  -  Concluiu.
    O velho não ficou surpreso com a resposta. Por que ficaria? Sempre fora do mesmo jeito. As pessoas entravam e saiam do Mosteiro: noviciados, postulados, magistrados e por fim, tornavam-se professores, como seus antigos professores eram. Repetiam os mesmos discursos, dia após dia, ano após ano.
    Quem sabe  -  pensava o sacerdote  -  um dia, os cientistas e o clero, juntos, pudessem destramelar as janelas da história e permitirem um novo entendimento da natureza, da vida, e das palavras dos Profetas. Quem sabe!
    Fitou o sino do campanário, um dos monges próximo à galeria se dirigia para a torre. Cogitou que anunciaria a segunda oração matutina, então voltou-se novamente para a enorme fachada da Igreja e, com as mãos apoiadas sobre o velho bastão, disse de modo tranquilo:
    -  Você tem razão filho, é mesmo Jó. O pobre Jó! Ele súplica à Deus, para ser seu advogado diante de Deus. Pode imaginar uma situação dessas!?

    O noviço olhou para o ancião sem entender, depois tornou a olhar para a Igreja enquanto o abade falava.
    -  O destino de Jó  -  continuou  -  é o destino de toda a criatura humana, sem exceção.  -  Com leveza, afugentou algumas abelhas, provavelmente vinham das dependências do jardim.
    -  A desgraça de Jó  -  dizia ainda  -  são seus amigos equivocados, pensarem que os valores divinos são comparáveis com os medíocres valores humanos.
    Depois encarou seu interlocutor nos olhos, e disse rispidamente:
   -  Mas pode apostar meu bom jovem, a imagem de Deus não é compatível com a imagem do homem. Isso está longe de ser verdade.
    Alguns monges perambulavam por ali, uns liam, outros escreviam, vinham de todos os cantos do Mosteiro e convergiam para o pátio central. O futuro monge apertou o escapulário contra o peito, olhou para as paredes enrijecidas e artisticamente trabalhadas, então deduziu que o artesão talvez possuísse informações históricas sobre sua arte.

    Um dado curioso não passou despercebido pelo noviciado, era a correspondência de Abraão com Jesus. Ela conectava inicio, meio e fim, de uma vasta história naquela imensa cápsula do tempo. Não conteve a curiosidade e pôs-se a perguntar.
    -  Mestre, por que as figuras começam pelo Patriarca Hebreu, e encerram-se na pessoa de Jesus? E, por que, o pão e o vinho estão presentes em momentos tão distintos da história?
    Dirigiram-se para a galeria, e, por um tempo, caminharam em absoluto silêncio. O sacerdote deu de ombros, depois fez um comentário desinteressado acerca do assunto.
    -  Bem...o pão e o vinho,  tem um conceito simbólico em todas as vertentes religiosas Cristãs, nos dias atuais. Mas, no curso dos acontecimentos históricos, pareciam quase sempre anunciar uma tragédia: uma guerra, uma morte na cruz...não sei! Talvez o artista deliberadamente quisesse chamar a atenção. Se isso for verdade, ele conseguiu de fato.
    Absteve-se de falar, ouve-se uma pausa. Do alto do campanário da espaçosa entrada do Mosteiro, o reverberar do sino emitiu a ordem de penitência. O ancião e seu aprendiz, e todos que encontravam-se no pátio, voltaram-se para a Igreja, os joelhos dobrados sobre o chão áspero, a cabeça debruçado sobre o peito. O gesto humilde contemplava a segunda oração do dia...


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A TRAGÉDIA DE FAUSTO

 FAUSTO - ( Johann Wolfgang Von Goethe - 1749-1832 )

RESENHA|RESUMO

Por Everaldo Ap Soares


Conta a história que Mefistófeles ( o diabo ) teve um certo dia com o Senhor ( Deus ) na assembléia dos Anjos. Deus pergunta á Mefistófeles: " como anda o mundo" á qual Mefistófeles responde : "quanto la vejo passa até de ruim".

O Senhor pergunta a Mefistófeles se tem visto fausto, seu 'Servo'.

Mefistófeles acusa Fausto de ser ambicioso e soberbo e que seria facil desencaminha-lo na vida.

O Senhor então permite que Mefistófeles 'tente' a Fausto com convicções de que Fausto não sederia ao diabo.
Mefistófeles se bajula de estar na presença de Deus, se despede das hostes angelicais e cai á terra para atormentar Fausto.

Está Fausto em sua casa debruçado sobre seus livros ao cabo de compreender todas as ciencias de seu tempo; filosofia, medicina,astrologia, teologia e outras tantas. Sendo um sábio acredita ele que está no "rol dos ignorantes" e longe do limiar do conhecimento absoluto das coisas do mundo.

Seus alunos e amigos o adimiram mais ele esta frustado e decepcionado. Pensa ser um impostor.Seu insáciavel desejo de conhecer os mistérios do que há na terra e acima no céu levam Fausto a estudar a magia.

Consulta Nostradamos, pratica encantamentos, evoca espiritos. Nada.

O que era distante ficara inalcançavel.

Se irrita.
Seu aluno Wagner o interrompe a noite, á porta, com um lampião na mão: " o mestre estava agora declamando não'stava ?", pergunta.

Conversam um pouco Wagner bajula o Mestre e sai.
 
É manhã. Fausto, só, deprimido e desconsertado já velho, é agora devoto de um fiel pensamento; quer dar cabo a sua vida.

Corre as prateleiras , entre calhamaços e folhas antigas, encontra um pequeno frasco de cristal que guardava um certo veneno.
Já com a taça de veneno nos labios Fausto escuta os sinos do campanario da velha igrejinha; passeatas, e coro de mulheres que cantavam. "passeantes de toda a casta". Era domingo de Pascoa.

Desiste do suicidio por um instante tomado de um estranho sentimento. De súbito seu amigo e discípulo Wagner entra em sua casa. Juntos saem seguindo o cortejo conversando.
 
Um velho camponês que passa mais outras senhoras vêem Dr Fausto; aclamações e elogios ao Doutor que lhes retribui com Carisma, "... é o oráculo das turbas...formam alas ao sabio...",

Wagner orgulha-se.

Fausto chama Wagner para subirem a encostae sentam numa pedra. Conversam até o crepusculo da tarde. Avistam um cão preto que se aproxima e julgam que o cão perdeu o dono. Fausto leva o cão pra casa e lhe da hospedaria em seu camarim.

O cão desassossegado perturba fausto que o repreende enquanto pega a biblia e senta junto a mesinha de canto. Abrindo- a no evangelho de São João lê: " No principio era o verbo...".

Não concorda e exclama.

O cão uiva.

Volta-se para o bicho: " não tolero um atrapalhador".

O cão se transforma em Mefistófeles, o próprio diabo.

Fausto fica horrorizado, " que horrenda diabrura hospedei eu em casa".

Pergunta á Mefistófeles quem é ele.

Que responde : " parte da força que, empenhada no mal , o bem promove ".
 
Depois de tomar conhecimento da natureza de Mefísto, trocam algumas desavenças e acusaçoes.
Fausto pede ao diabo que vá embora .
   
Mefistófeles não consegue sair da casa porque esta preso dentro de um pentagrama que a muito era usado por Fausto na aplicação da magia.

Mefistófeles evoca um bando de espiritos que enfeitiçam Fausto e fazem-no dormir um profundo sono. Dali Mefisto ordena uma ratazana á roer uma das pontas do pentagrama, bem "ali...onde o pé do diabo esbarrou".

Uma vez livre, vai-se embora.

Fausto acorda N'outro dia acreditando ter sonhado com um "demônio astuto...".Mefistófeles retorna a casa de Fausto e proponha a ele um pacto; que lhe serviria " em tudo" na terra em troca de sua alma.
 
Fausto acha desinteressante pois ja está velho e nada mais pode atraí-lo. È uma aposta perdida para Mefisto.
 
Mefistófeles convence o Doutor a assinar um pacto de sangue desde que o demônio ensine á Fausto todos os mistérios que o aflingem e consome e até que Fausto deite numa cama de preguiça " contente e em paz", dai pouco importa a ele o que o diabo farã com ele..

Apostam.

Combinados, papéis assinados, Fausto tem agora a "...nata dos serventes...". Está se trajando para sair num passeiocom Mefist´feles quando batem á porta.
 
Um" rapazola".

Vinha de longe ter com o Dr Fausto, o Mestre dos Mestres e O Sábio dos Sabios.

Mefistofeles pede que Fausto lhe de a batina de Doutor e se passa pelo mesmo. Diz pra Fausto estar pronto em um quarto de hora.
 
Mefisto atende o rapazola.
 
Pergunta ao rapaz o que deseja.

"...queria tornar-me sabichão...compreender a natureza e abarcar a ciência..." responde.
 
Minutos se passaram com Mefistófeles, pareciam horas para o rapazola que estava encantado com tamanha sabedoria. Pensava: "isto é que é mestre ...que achadão! " bati a porta certa.

De todas as ciências o rapaz queria aprender teologia. " E a teologia? ". Pergunta.
 
Mefistófeles: " Nesta ciência não é seguro pensar...há mil caminhos falsos..."pois, " com palavras arranja-se um sistema ".

Dispensado o rapaz, Mefisto volta-se para Fausto que " entrajado a fidalga "indaga; onde vamos?
 
Mefistófeles sugere levar Fausto a conhecer os dois extremos do mundo mais primeiro quer com o Doutor "... correr a sociedade..."começando pela plebe.
 
Chegam a uma taberna onde há muita festança e alguns beberrões que cantarolam poemas em rimas.Adentram a taberna pelos fundos.
 
Pelos trajes julgam os rapazes que os forasteiros recem chegados pertencem a alguma casta burguesa.

Continuam a cantar e conversar.Insultam-nos baixinho.

Mefistófeles e os beberrões entram num duelo de rimas e poesias.

 Desentendem-se.

Saem dali Fausto e Mefisto não antes de uma confusão promovida entre os poetas de plantão da taberna  e Mefistófeles.

Vão para uma caverna de feiticeira onde Fausto deve tomar a poção do rejuvenescimento e tornar-se jovem. Fausto ja jovem pega um espelho e vê a bela Helena. Ao voltar pra casa Fausto " já remoçado ", enamora Margarida que não lhe da atenção." Da lhe costa e sai".

Fausto pede ajuda de Mefistófolis par conquistar o coração da bela Margarida. Mefisto explica que não pode pois  Margarida acabara de voltar da igreja onde , no confesso o padreco acabara de absolver todos os pecados da mocimha.
 
Fausto insiste,

Mefistófeles garante que alguns presentes,jóias e brincos de ouro façam a bela mudar de idéia.

Deixam os presentes no quarto d'Ela, anonimamente, um cofre cheio de jóias.

Sem saber a procedencia nem o porque, a beata de sua mãe doa todo ouro pra santa igreja. O quanto de tudo trazia Mefisto á donzela, o padreco embolsava.

Reclama á fausto indignado o pobre diabo:"atabafou a pobre Margarida..."

Mefisto tem uma idéia pra aproximar o Doutor enamorado a jovem; usa Marta, sua vizinha e amiga.

Se passa de mensageiro, traz noticias do "espadinha", amor de Marta que , certamente se encontrava em batalha na cercanias. Diz que o pobre moço morreu e está enterrado em Pádua, aos pés de Santo Antonio e, pede encomenda á sua amada 300 missas pra garantir sua alma.

Marta desespera-se, Margarida conforta-a. Marta pede ao mensageiro ( Mefisto ) um documento que comprove como, quando e onde e, o paradeiro do tumulo do amado.

Mefistófoles assegura Marta que um par de testemunha perante o Juíz é de valor legitimo. Diz tambem que trará um figurão ( Fausto ) muito amigo do espadinha se a moça assim consentir.

" pois não ". Consente Marta.

Na opinião de mefisto é prudente que Margarida esteja presente pra conhecer o admirável figurão tambem muito amigo do mensageiro.

Margarida aceita, mesmo acanhada.

Fausto aceita mais desaprova o falso testemunho de jurar sobre a ossada do infeliz que descansa perene em terra benta.

" Santa simplicidade, o que é preciso, é jurar que se viu ". Afirma Mefistófeles.

" És, fostes e hás de ser sempre um mentiroso..." Conclui Fausto.

Se encontram a tardinha no quintal de Marta, Fausto e Mefisto, com Margarida ali tambem um pouco anciosa. Conversam entre si longas horas, Margarida se encanta com tamanho cavalheirismo e simpatia do amigo do mensageir

Saem a noitinha deixando as damas e vão-se.

Margarida e Fausto passam a se encontrar.Se apaixonam e mantem um caso em  sua casa depois de conseguir dopar a mãe com um poderoso sonífero preparado por Mefistófeles a pedido de Fausto.

Margarida engravida, revolta seu irmão Valentin que a acusa de ser uma mulher vulgar. Acerca Fausto e o desafia para um duelo de vida ou morte. Fausto aceita.
 
Com a ajuda de Mefisto Fausto assassina Valentim que morre agonizando nos braços da irmã.

Margarida enlouquece e é presa acusada de ter matado a mãe envenenada ( com a poção magica no chá ) e ter afogado seu filho num lago.
 
Fausto tenta resgatá-la da prisão, ela se recusa está delirando e já não acredita mais n'Ele.Insiste ele. Ela prefere morrer no carcere.

O tempo está acabando, Mefisto apressa Fausto a correr contra o tempo de seu feitiço que entorpeceu os sentinelas da prisão. Nada. Fausto prefere ficar ali com Margarida encarcerado.

 
È manha. Vem os guardas.
 
Mefistófeles surge sob o piso tosco da sela onde estão o casal como um fantasma aos olhos da mocinha já delirante.e pede a Fausto que tome um decisão.

Não sairá sem ela. Reluta Fausto

Ela se assusta com o que vê, reza e pede aos anjos que acolha a sua alma.
 
Mefistófeles intervem.
 
" Sentenciada ".
 
Os anjos.
    
" Salva ".
 
Mefistófeles apossa-se de Fausto levando-o consigo.
 
" És meu ".


 everaldo.uni@gmail.com